E ninguem sabia quem era João de Deus. E ninguem procurava saber quem fosse. Ou antes, julgavam todos sabel-o. Conheciam-no todos. Era um cerebro em ebullição, um coração em ataxia permanente, um estomago que valia por uma adega.
João de Deus era um doudo que forrava as paredes do albergue com as folhas das sebentas, que dormia dentro da enxerga, porque achava mais commodo isto do que dormir-lhe em cima, que se matriculava todos os annos na faculdade em que o secretario-universitario se lembrava de matriculal-o, que fôra de Coimbra a casa, d'algibeira vasia e lapis constantemente occupado em fazer magnificos versos ou magnificos desenhos, que se fizera um dia sachristão, e pozera n'outro, todo um bairro em sobresalto, subindo aos telhados para apostrophar a lua, etc., etc.
E as anecdotas galantes succediam-se, e a cada nova poesia annexava-se uma historieta, e quando as poesias escaceavam, attribuiam-se ao poeta novas doudices, novas excentricidades, como a certo honrado e já defuncto general se attribuiam quantos dispauterios o soalheiro burguez produzia. Se eu fosse biographo de João de Deus havia talvez de lavrar aqui um protesto esmagador.
Como não sou, limito-me a dizer o que penso do illustre algarviense. Mais ou menos todos somos poetas. N'este mais e n'este menos está, creio eu, o segredo da organisação sensorial, se póde dizer-se assim, organisação modificada é certo, mas não completamente transformada pelo meio e pelo habito.
Tal sensação que n'uns individuos poria o cerebro n'um estado de effervescencia que lhe exagerasse a realidade, a ponto muitas vezes de a substituir por uma concepção puramente subjectiva, em taes outros póde dar apenas o facto funccional em condições normaes e ordinarias, e, concentrando-se, converter-se em reflexão. Precisava isto longo desenvolvimento. Ora como o primeiro modo de ser sensorial póde dar-se em todos, mas com mais ou menos intensidade, com maior ou menor frequencia, digo eu (e dizem bons escriptores) que todos são mais ou menos poetas. Isto quanto ao facto intellectivo. Quanto á expressão, o mesmo se póde dizer sem receio de contestação seria.
Pois na concepção como na palavra eu tenho João de Deus por verdadeiro poeta.
Dizia Merck, homem de profundo bom senso, a Goëthe, seu amigo:
«A tendencia irresistivel do teu genio é a de imprimir a fórma poetica ás cousas reaes. Outros procuram uma soi-disant poesia tranformando em realidades, puras imaginações, o que só produz disparates.»[2]
Sem concordar incondicionalmente com a primeira phrase do sensato allemão, sem querer acceitar a segunda como lei comprovada de critica litteraria, parece-me que de João de Deus se poderá dizer que reune as duas tendencias, as duas feições designadas, a idealisação (phrase consagrada e porventura inexacta) do real, e a personificação, melhor talvez, a realisação plastica do imaginario.
Como que as sensações sensoriaes[3] n'aquelle cerebro delicado, ou atravez d'aquelle organismo exageradamente impressionavel se destacam algumas vezes do estimulo, ou alteram a natureza da propria objectividade e criam um mundo novo, um mundo mystico, permittam-me a expressão, a que o poeta dá uma realidade objectiva moldando-o pelas manifestações plasticas do mundo em que vive. Acontece porém, poucas vezes, nem podia deixar de ser assim, quando a indole da época e a illustração do poeta se estão oppondo á formação e sustentação d'estas concepções puramente subjectivas. Adivinha-se aqui ou alli a lucta tremenda que vae no cerebro de João de Deus, lucta que é a feição caracteristica do seculo, e que o manto esfarrapado do eclectismo immoral não consegue abafar, lucta entre o velho crêr e a duvida, a duvida, que como a hydra da mythologia surge após cada decepamento, e que não é possivel destruir como aquella decepando-lhe o tronco. Ouvide um exemplo: