Prestes, se inda na rocha de granito
D'onde em tempo me vias, te sentares,
Não olhes para a terra, ou para os mares,
Olha sim para o céo, que é lá que habito.
Lá, tão longe de ti mas não do terno,
Bondoso pae que os dois nos ha gerado,
Só para magoas não, que bem guardado
Nos tem tambem no céo prazer eterno.

Que profunda crença, que certeza mystica, se póde dizer-se assim, não rescende a suave morbidezza d'estes versos! Ha alli alguma cousa do cantor da Bice. Vêde porém a tempestade que se annuncia; a duvida atravessou como um relampago o cerebro do poeta. Ouvide:

Não se é só pó no fim de tanta magoa.
Senão, diga-me alguem que allivio é este
Que sinto quando á abobada celeste
Alevanto os meus olhos rasos d'agua?
Mentem os céos tambem? Os céos maldigo.
Feras, tigres tambem o céo povoam?
Tambem os labios lá sorrindo coam
Veneno desleal em beijo amigo?
Mas na dôr é que os astros nos sorriem,
E os homens não sorriem na desdita.
Astros! fio-me em vós, e Deus permitta
Que os infelizes sempre em vós se fiem.

Refaz-se a crença, resurge a esperança consoladora:

Ha depois d'esta vida uma outra vida.
Não se reduz a nada um grão d'areia,
E havia de a nossa alma, a nossa ideia,
Nas ruinas do pó ficar perdida?

Pobre sonhador! Aquelle segundo verso é um protesto ironico contra o teu ideal mystico, é o grão d'areia que ha de intorpecer e desmandar todo o machinismo psycologico da tua crença!

Continúa:

Isso que pensa e quer (até me admiro)
Isso que a luz nos traz, que a luz nos leva, etc.

e accrescenta:

Onde, não sei eu bem, mas sei que existe
Deus remunerador. Depois de mortos
Hemos de vêr-nos e um no outro absortos
Fartar de glorias este amor tão triste.
Tão triste e... (o coração que me adivinha?)
N'este supplicio nosso, este tormento,
Nunca dos labios teus minimo alento
Num só beijo bebi em vida minha!