Fulge de novo o relampago, baqueia o edificio da crença, vêde que tormento:

E morro sem te vêr! Cabeça douda
Desasissado amor? sonhar afflicto
Um sonho até morrer...

Pobre Hamlet!

... the rest is silence

Um sonho até morrer... Não: resuscito;
Morto tenho vivido a vida toda.

Pobre Faust! O insufficiente (das Unzuloengliche) atormenta-te, porque te fascina o inenarravel (das Unberchreiblichee). Que tempo precioso perde comtigo o sensato Mephistopheles!

Preferes á gargalhada que te chama á realidade da vida, o chorus mysticus que te amargura a existencia com a mentira da miragem!

João de Deus é rigorosamente um artista insaciavel: «Satiari artis cupiditate non quit,» como diria Plinio.

Adivinha-se em cada estrophe d'elle um ancear indefinivel, um vago aspirar, se póde dizer-se assim, uma como que miragem que atráe o poeta, que o alenta umas vezes e o desespera não poucas, que parece enviar-lhe dos visos do horisonte uns suaves frescores envoltos em deliciosos perfumes, e que como a miragem do deserto, lhe foge sempre aos labios sequiosos.

E o pobre viandante vae caminhando e cantando sempre. É um descantar dolorido geralmente, como que descantar de saudade do que sonhou e não acha, e não gosa, e não encontra no caminho, como que de saudade do que lhe foge sempre, deixem-me usar a dôce palavra que bem sei eu que não fica ella bem lexicographicamente applicada.