E assim com a imaginação embalada por um vago ideal vae João de Deus poetisando como Goëthe na opinião do seu, já citado amigo, tudo o que no caminho encontra. Poucas vezes se lhe altera a harmonia cerebral ao impulso d'uma vibração mais violenta. Os successivos amores—fundem quasi n'uma abstracção, parecem subtilisar-se até no feminino eterno do cantor do Fausto. Hoje Margarida, amanhã Helena, depois... Depois quem sabe?

Hoje Marina. É uma recordação.

Como esse olhar é dôce!
Dôce dâ mesma sorte
Como se nunca fosse
Toldado pela morte,
Como se alumiasse
O sol ainda em vida
As rosas d'essa face
Agora carcomida.
Colhesse-as eu mais cedo
E logo que alvorece,
Já não tivesse mêdo
Que a terra m'as comesse.
.........................
Se um dia nos meus braços
Te desbotasse as côres,
Passavam os abraços...
Passavam os amores!...

Oh não: mil vezes antes
No céo lá onde habitas
E os rapidos instantes
Que vens e me visitas
N'este degredo nosso
Que tanta gente estima,
E eu, só porque não posso
Não largo e vou lá cima.
Vem tu cá baixo, abala, etc.
.......................
Ha uma hora ou mais,
Marina! que contemplo
A casa de teus paes
Que é para mim um templo.
É esta vida um mar
E bem se póde a gente
Marina, comparar
A rapida corrente
Que vae de lado a lado
Por esses valles fóra
Sem nunca lhe ser dado
Ter a menor demora:
Pára quando a engole
Aquelle mar sem fundo;
Nem pára, é como o sol
E como todo o mundo.
.......................

Custa a resistir á tentação de transplantar para aqui completas, estas magnificas singelesas. Não ha n'aquillo alguma coisa do que é espontaneo e bello na Vita Nuova?

Mas, como dissemos, o poeta approxima-se tambem do Faust na volubilidade artistica.

Maria! vêr-te á porta a fazer meia
Olhando para mim de vez em quando
É o que n'esta vida me recreia.
...................................
E eu pallido, Maria! o pensamento
Não é trabalho que nos dê saude,
Esta imaginação é um tormento.
...................................
É que a gente na sua mocidade
Não cabe em si, não pára de contente
E assim fui eu na flôr da minha edade.
Tu eras n'esse tempo simplesmente
A flôr que vae nascendo e mais valia
Seres tão terna ainda e innocente.
Já esse lindo pé que tens, Maria!
Esse quadril tão largo e cinta estreita
Me não vinha á ideia noite e dia;
Esses encontros de mulher perfeita,
Esse peito redondo e arqueado
Como a pomba farta e satisfeita;

Talvez vivesse então mais socegado
Ou já que a minha sorte é sempre triste
Ao menos não andasse enfeitiçado.
...................................

Depois é Margarida:

Oh! que formosos dias, Margarida!
Esses, etc. etc.

Depois... Ha nomes que não se proferem, que não se denunciam. São como certo nome do Deus judaico.

O poeta diz simplesmente: No leito nupcial. Um nome depois d'isto fôra mais que uma profanação, fôra uma infamia. Julgaes porém que ides ouvir uma recriminação amarga ou uma indiscripção villã?