Dorme, estatua de neve,
Vergontea de marfim,
Tocar que impio se atreve
No que é sagrado assim!
Dois são: o mais, mysterio
Vedado á terra, Deus
Talvez do solio ethereo
Nem baixe os olhos seus.
Respeita-os, tapa-os, como
Japhet e Sem, o pae...
Pende sagrado pomo,
A vista ergue-se e cáe.
Ergue-se e cáe, conforme
A lei que o manda assim,
Ergue-se e... dorme, dorme,
Vergontea de marfim!
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Não segue acaso a sombra
Teu corpo sempre, flôr?
E pois porque te assombra
Meu insensato amor?
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Depois é Beatriz:
Tu és o cheiro que exhala
Ao ir-se abrindo uma flôr;
Tu és o collo que embala
Suas primicias d'amor.
Tu és um beijo materno,
Tu és um riso infantil;
Sol entre as nuvens do inverno,
Rosa entre as flôres d'abril.
Tu és a rosa de maio,
Tua és a flamula azul
Que atam á flecha do raio
As nuvens negras do sul.
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E assim vae cantando sempre, de nome em nome, e de mysterio em mysterio e d'amor em amor, de duvida em duvida, de saudade em saudade, d'anceio em anceio. Não ha Beatriz que o retenha e lhe oiça o Ecce Deos fortior me veniens dominabitur mihi.
Um dia encontra uma mulher formosa, joven, alegre. Ama. Será amado?
Amas-me a mim! perdoa,
É impossivel! Não,
Não ha quem se condoa
Da minha solidão.
Como podia eu triste,
Ah! inspirar-te amor,
Um dia que me viste,
Se é que me viste... flôr!
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Via-te arfar o seio...
Córar... mudar de côr,
E embora, ah! não, não creio,
Tu não me tens amor!
E o sonho foi-se e a visão desappareceu. Como se chamava aquella mulher? Vão lá saber como se chama a estrella cadente que rasga a amplidão do espaço e desapparece n'ella?
E foi uma estrella cadente, aquella. Perdoem a indiscripção.
Outro dia é o poeta que se afasta, que foge, porque receia macular com o seu halito o puro fulgor da estrella.
Tenho-te muito amor,
E amas-me muito, creio,
Mas ouve-me, receio
Tornar-te desgraçada.
O homem, minha amada,
Não perde nada, gosa;
Mas a mulher é rosa...
Sim, a mulher é flôr!
Ora, e a flôr, vê tu,
No que ella se resume...
Faltando-lhe o perfume.
Que é a essencia d'ella,
A mais viçosa e bella,
Vê-a a gente e... basta.
Sê sempre, sempre casta!
Terás... quanto possuo!