Vou findar com as transcripções, que bastam as que ficam feitas para comprovar o que ácerca d'estas mimosas poesias e d'este original poeta tenho dito e hei de para o diante dizer. Não posso porém resistir á tentação de citar ainda uns trechos d'uma das mais bellas e caracteristicas composições de João de Deus. Podesse eu transcrevel-a toda!
Não tem nome. Chamam-lhe alguns «A vida». Innumeras vezes tem ella feito cessar as alegrias das salas e interrompido brilhantes festas como o austero bispo de certa poesia de Thomaz Ribeiro, para mendigar ao sentimento das damas um condoimento de triste sympathia pelas intimas amarguras do poeta. Tem por epigraphe aquellas formosas palavras do Tasso:
Cosi trapassa al trapassar d'um giorno, etc.
e começa:
Foi-se-me pouco a pouco amortecendo
A luz que n'esta vida me guiava,
Olhos fitos na qual até contava
Ir os degraus do tumulo descendo.
Em se ella annuveando, em a não vendo,
Já se me a luz de tudo anuveava;
Despontava ella apenas, despontava
Logo em minha alma a luz que ia perdendo.
Alma gemea da minha, e ingenua e pura,
Como os anjos do céo (se o não sonharam...)
Quiz mostrar-me que o bem, bem pouco dura.
Não sei se me voou, se m'a levaram,
Nem saiba eu nunca a minha desventura
Contar aos que inda em vida não choraram.
Estas linhas fazem recordar Camões. Ha n'este tristuras que se manifestam por versos parecidos, mas eu prefiro estes ao tão conhecido soneto da «Alma minha gentil,» etc. Parece denunciar-se n'esta singelesa morbida, se póde dizer-se assim, mais sentimento e espontaneidade.
Vamos mais além. Que superabundancia de ímagens! Que riquesa e variedade de sensação! Que esplendidos quadros! Que magnificencia de colorido!
Ah! quando no seu collo reclinado
—Collo mais puro e candido que arminho,
Como abelha na flôr do rosmaninho
Osculava seu labio perfumado;
Quando á luz dos seus olhos... (que era vêl-os,
E enfeitiçar-se a alma em graça tanta!)
Lia na sua bôcca a Biblia santa
Escripta em letra côr dos seus cabellos:
Quando aquella mãosinha pondo um dedo
Em seus labios de rosa pouco aberta,
Como timida pomba sempre alerta,
Me impunha ora silencio, ora segredo;
Quando, como a alveloa, delicada,
E linda como a flôr que haja mais linda
Passava como o cysne ou como ainda
Antes do sol raiar, nuvem dourada;
...................................
Quando a cruz do collar do seu pescoço,
Estendendo-me os braços, como estende
O symbolo d'amor que as almas prende,
Me dizia... o que ás mais dizer não ouço;
...............................................
Quando o ouro da trança aos ventos dando
E a neve do seu collo e seu vestido
—Pomba que do seu par se ia perdido,
Já de longe lhe ouvia o peito arfando;[4]
Tinha o céo da minha alma as sete cores, etc.
...........................................
...........................................
Que é d'esses cabellos d'ouro
Do mais subido quilate,
D'esses labios escarlate,
Meu thesouro!
Que é d'esse halito, que ainda
O coração me perfuma!
Que é de teu collo de espuma,
Pomba linda!
..............................
..............................
De dia a estrella d'alva empallidece;
E a luz do dia eterno te ha ferido.
Em teu languido olhar adormecido
Nunca me um dia em vida me amanhece.
Foste a concha da praia. A flôr parece
Mais ditosa que tu. Quem te ha partido,
Meu calix de crystal, onde hei bebido
Os nectares do céo... se um céo houvesse!
Fonte pura das lagrimas que choro![5]
Quem tão menina e moça desmanchado
Te ha pelas nuvens os cabellos d'ouro!
.....................................
A vida é o dia d'hoje,
A vida é ai que mal sôa,
A vida é sombra que foge,
A vida é nuvem que vôa;
A vida é sonho tão leve
Que se desfaz como a neve
E como o fumo se esvae:
A vida dura um momento;
Mais leve que o pensamento,
A vida leva-a o vento,
A vida é folha que cáe!
A vida é flôr na corrente,
A vida é sopro suave,
A vida é estrella cadente,
Vôa mais leve que a ave;
Nuvem que o vento nos ares,
Onda que o vento nos mares
Uma apoz outra lançou,
A vida—penna cahida
Da aza da ave ferida,
De valle em valle impellida
A vida o vento a levou!
..............................
..............................
Talvez, é hoje a Biblia, o livro aberto
Que eu só ponho ante mim nas rochas, quando
Vou pelo mundo vêr se a posso vêr;
E onde, como a palmeira do deserto,
Apenas vejo aos pés inquieta ondeando
A sombra do meu ser.
..............................
Depois d'isto comprehendeu-se que João de Deus se propozesse a traduzir o Cantico dos Canticos.
Como, se bem me lembro, diz Herder, os elementos primordiaes da poesia hebraica são a sensação e a imagem, e posto que, no meu entender, a boa critica não possa monopolisar aquella feição em favor apenas d'aquella poesia, porque ella é caracteristica de todas as litteraturas na sua genese, e nos primeiros periodos de constituição, em quanto predominam no homem os sentimentos elementares como diz Veron[6], comtudo a poesia hebraica propriamente tal quasi não chega a ultrapassar o periodo d'aquelle predominio. Poderiam talvez accusar-se os versos que acabo de transcrever de certo garridismo que mal iria ao sentimento que exprimem, se a violencia d'esse sentimento, o estado de exaltação sensorial não estivessem justificando o que parece defeito aos leitores que não sintam a transfusão psychologica que muitos hão de experimentar ante aquelles versos magnificos.