A poesia de João de Deus é verdadeira musica. Se eu estivesse agora para combater os que julgam como Lamartine[7] que a versificação, o rhythmo, a cadencia, a rima, são cousas indifferentes á poesia na «época adiantada e verdadeiramente intellectual dos povos modernos», os que teem tudo isso, como Heine (cit. por Max. Buchon) por completa puerilidade, para valente comprovação me podiam servir os versos do nosso poeta.
São elles geralmente como que uma psalmodía. Allia-se a musica e a poesia que tantos querem distancear, como se o rythmo fosse apenas elemento especial d'uma arte. João de Deus como que tem uma rhythmopêa espontanea. Sahe-lhe o verso moldado pela ideia e pelo sentimento, e n'este como n'aquelle a modulação existe pelas fataes variantes dos estimulos e das vibrações cerebraes. Procuraram os gregos systematisar as relações do rhythmo para com a idêa e o sentimento, como se fôra possivel marcar limite numerico aos modos de ser do pensamento, ou aos productos da actividade intellectual e esthetica. Se, pois, em muitos casos, são acceitaveis as velhas regras, geralmente a rhythmopêa deve ser producto espontaneo, e não canon de escóla. E porque se dá o primeiro caso em João de Deus, é que talvez se revela nos seus versos, bem salientemente o cunho da personalidade, condição essencial d'uma obra poetica. É necessario não perder aquella de vista, porque, como diz o critico francez, que atraz citei, o verdadeiro merecimento, na poesia, está antes na esthesia do poeta de que na do leitor. Ora bastam as transcripções que fiz para vêr como a personalidade do poeta, o seu sentir e pensar se patentêam na expressão, na fórma, que em outros escriptores mal disfarça com arrebiques e ouropeis a carencia da sensibilidade e inspiração pessoal.
Ha mais poesia n'algumas singelezas de João de Deus do que em muitos versos laureados que por ahi correm como modêlos de metrificação, e que bem podem sêl-o, o que não basta de certo.
Mais poesia em pobre margarida
Que aos pés se pisa, enthesourada vejo,
Que em muita madreperola polida
Que as cinzas guarda de finado arpejo.
Toquei eu agora n'uma das melhores poesias de João de Deus, poesia que elle diz ser fragmento, e fragmento que bem faz desejar a apparição da obra toda.
Vou ainda transcrever alguns trechos que lançam de certo muita luz sobre o vulto, quasi lendario do poeta, em pontos menos esclarecidos pelas transcripções anteriores.
Padre, ministro do Crucificado
É bom ferreiro afeiçoando o ferro
Com que ha de prestes ir rompendo o arado
Os campos d'este secular desterro...
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Na montanha da Fé, mulher formosa
Se ante mim a meus pés desenrolasse
Como o demonio a vastidão pasmosa
Que elle dava a Jesus se o adorasse
E me pedisse em premio uma só cousa
Ás mãos de minha mãe furtar a face;
Eu lançava-lhe cuspo...
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Vêde-a ao berço, sofrega de vida
Que a sua é pouca para dar ao filho;
Ella em cama de espinhos, mal vestida,
Elle enfaxado, em berço de tomilho;
Ella em continua, asafamada lida,
Elle vendo se apanha á luz o brilho...
Já descobrindo em tão tenrinha edade
Que toda a sua sêde é de verdade.
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Irmãs da Caridade! A caridade
Tem só duas irmãs—a Fé e a Esperança:
Não traja as côres só d'uma irmandade,
Traja as côres do Arco d'alliança;
Leva sósinha o pão da piedade,
Tira da roda essa infeliz creança...
Roda da vida que anda de tal sorte
Que, em se lhe dando, é já contar com a morte.
Bemdita sejas tu, victima triste
D'um peito amante e d'um amante ingrato!
Que nunca á mesma loba lançar viste
Inda mamando o cachorrinho ao mato;
Bemdita sejas tu, que o que pariste
Teu fructo, imagem tua e teu retrato
Conservas como espelho onde te vejas;
Bemdita sejas tu, bemdita sejas.
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Acaso é só dourada, altiva estola
Que liga os corpos em as mãos ligando,
Confunde corações e faz em summa
Que a Deus se elevem duas almas n'uma?
Ahi tendes o apostolo, o campeão social. Não lhe aceiteis, muito embora, a doutrina. Acatae-lhe a generosidade, a grandeza da ideia, a robustez da convicção. Que poema enorme, magestoso e bello não será aquelle!
Colligir as poesias de João de Deus que por ahi andavam dispersas, mutiladas e perdidas, foi de certo um grande serviço ás patrias letras.
Prestou-o o snr. José Antonio Garcia Blanco.