João de Deus não canta para a sociedade, canta para si. Quer discorra por vergeis de poesia singela e perfumada, quer se eleve a alturas desmedidas, não se importa de que lhe não oiçam nem entendam o canto sempre harmonioso. É talvez por isso que elle não publicou, nem publicaria as Flores do Campo.
Ao amigo que lh'as estampou, muito devemos nós todos os que presamos as nossas boas letras.
Agora se me offerece caso para cogitações profundas: as Flores do Campo saíram a lume ha quasi um mez, e, até á data em que te escrevo, dormem os nossos criticos a bom levar, sem que uma palavra lhes haja irrompido dos labios, sobre o merecimento d'este magnifico livro. Aqui, ha por força caso virgem, mas... ponto em bôcca.
E pois que os criticos não querem, ou não ousam, pronunciar o seu veredictum, vou eu mostrar-te o valor em que tenho as Flores do Campo, por que me digas ao depois se não são ellas, para a nossa litteratura, prenuncios d'um outono avergado de fructos.
Quando o visconde de Chateaubriand trabalhava por agremiar em torno da cruz as multidões, que ainda sentiam nos ouvidos a voz tentadora de Robespierre e Mirabeau, surgia na Inglaterra um homem extraordinario, personificação pasmosa do genio e do scepticismo—lord Byron.
Ninguem como o cantor do Childe Harold, pôde jámais aliar uma alma de poeta ao scepticismo, á duvida, á frieza, que ressumbram de cada verso do Don Juan:
For me, I know nought; nothing I deny,
Amit, reject, contemn; and what knew you,
Except perhaps that you were born to die?
And both may after all turn out in true.
Mas... na mente de Byron reflectia-se uma das tendencias mais caracteristicas da sociedade contemporanea; o scepticismo apresentou-se revestido com a aureóla do genio, ergueu-se como chamma incendiaria, e lavrou pela litteratura do seculo.
Que restava aos adeptos da poesia? O maior numero, como os companheiros de Ulysses, deixou-se arrastar pelos cantos da sereia, e, se não abordou á ilha encantada, d'onde lhe acenava a gloria, mediu a profundeza do abysmo que a tentação lhe abriu aos pés...; outros, refugiram á attração, e velejaram alegres por onde os não batessem os pampeiros da descrença e do scepticismo.
A poesia que abre o livro de João de Deus é o emblema dos dous rumos por onde tomam os argonautas da arte, e estrema o scepticismo e crença, Camões e Byron. Não sei se esta composição vale muito aos olhos dos mestres; para mim, é das mais somenos de João de Deus, e, se não fôra collocada alli para denunciar, talvez, as crenças litterarias do auctor, não a quizera vêr á entrada d'este livro. A arte exige para um edificio primoroso um portico lavrado a primor.