Na composição alludida, se a ideia é grande e original, a fórma que a reveste não, não é perfeita; sem fórma, não concebo arte, e sem arte não se traduz o sentimento do bello.
Não vás porém julgar que estou dando lições de poetica a um poeta como João de Deus. Mais do que ninguem, conhece elle por ventura os defeitos do seu livro, e, se os poupou, ao limar os seus versos, é que não teve em tanta conta, como geralmente se tem, certas exigencias da arte.
Que vês?—Sóes, de tal sorte
Que os crêra tochas pallidas,
Quando as guedelhas, madidas
De sangue, arrasta a morte.
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—Falla.—Deus! que harmonia!
Aqui a alma exalta-se;
A alma aqui dilata-se...
Camões!—É a poesia.
Nem a critica imparcial tanto exige, nem eu tenho logar bastante para transcrever aqui todas as estrophes, em que as rimas se me deparam defeituosas e erradas. Cito-te de passagem queime e geme, deixe e feche, confesso e immenso, cuides e virtudes, outro e encontro, géra e inteira, teimo e supremo, prega e negra, avaro e ara, sêde e hei-de, põe e foi, vê e adorei, inteiro e quero, etc.
E comtudo João de Deus parece brincar com as maiores difficuldades da rima. Para não fallar na poesia Boas Noites, basta apontar-te aquelle trecho da poesia O Musgo:
Um dia, não sei que tinha...
Uma tristeza tamanha!
E lembra-me ir á montanha
Que temos aqui visinha,
Onde em tempo me entretinha
Horas e horas sósinha,
Quando ainda não se extranha
Que n'uma teia de aranha
Se prenda uma innocentinha,
Ou atrás d'uma avesinha
Se cance a vêr se a apanha.
Em metricação tambem as Flores do Campo nos offerecem provas de que João de Deus não é, n'este ponto, nimiamente escrupuloso. Assim ficou errado este decassyllabo:
Chamando-os com enternecimento,
e aquelle septissylabo que vae sublinhado:
Que é a torre exactamente
De David n'esses ares,