É assim que João de Deus se recorda da visão fugitiva que lhe doirou os sonhos de poeta e moço. Mais adiante, parece esquecer o lucto da saudade, mas não perde a doçura da harmonia:
Como os teus pés são lindos! como é doce
A curva do teu peito!
Oh! se o meu coração fosse o teu leito,
E o teu amado eu fosse!
Que preciosas perolas descobre
Teu meigo, humilde labio!
E virgem! como Deus foi justo e sabio
Em te deixar tão pobre!
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Tu não tens mais do que uma pobre saia,
E essa, curtinha e leve.
Onde o corpo te alteia, a saia avulta;
Onde te abaixa, desce...
És como a rosa! A rosa nasce e cresce,
Não para estar occulta.
O que te falta, pois? os teus desejos
Quaes são? de que precisas?
Ah! não ser eu o marmore que pisas...
Calçava-te de beijos!
Ao terminar a transcripção d'este mimosissimo trecho, sinto não poder attribuir a João de Deus a chave que o fecha. O aprimorado e suave oratoriano Manoel Bernardes já tinha dito na sua excellente Luz e Calor, fallando a Jesus menino:
«Menino da minha alma, meu eterno nascido de ainda agora, meu gracioso molhinho de amores perfeytos, minhas bellezas encantadoras do coração humano: faze-me Serafim, para que te ame muito: dá-me limpeza grande em meus labios para calçar teus pésinhos de mil osculos santos: deyxa cahir das conchinhas de teus olhos hua lagryma sobre meu peyto, etc.» (Pag, 556, ediç. 1724.)
Mas que importa isso? Prouvera a Deus que os plagiatos, de que a litteratura anda eivada, se pautassem por este!
Vivacidade de expressão, galanteria e graça, podes vêr d'isso um modelo no madrigal, epigramma, ou como quizeres chamar-lhe, feito A uns olhos azues:
Cáe a folha da rosa pudibunda,
Cáe a rosa da face virginal,
Cáe das nuvens a aguia moribunda,
Cáe o sol na montanha occidental.
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Cáe do céo a centelha incendiaria,
A nuvem cáe, se um sopro Deus lhe dá,
Cáe ante o dia a noite solitaria
Como o falso Dagon ante Jehovah.
Cáe tudo, flôr! cáe tudo; eu só não caio:
Mais do que um rei, que o sol, egual a Deus,
Cahir, mulher! só posso á luz d'um raio
Se elle cahir do céo dos olhos teus!
De vez em quando, o poeta apparece-nos pensador e philosopho; mas, ainda assim, a razão não vence o sentimento:
Irmãs da Caridade! A Caridade
Tem só duas irmãs—a Fé e a Esperança:
Não traja as côres só d'uma irmandade,
Traja as côres do Arco da Alliança;
Leva sósinha o pão da piedade;
Tira da roda essa infeliz criança...
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Mais longe iria eu, se me propozesse trancrever tudo o que nas Flores do Campo se apresenta digno dos mais levantados encomios. Assim, por não alongar em demasia a presente carta, recommendo-te a leitura da Heresta, da Rachel, do Ultimo adeus, da Marina, do Remoinho, do Leito nupcial, da Innocencia, da Joven captiva, e, muito especialmente, do Cantico dos canticos de Salomão.