Lamennais e Renan haviam traduzido esplendidamente o Cantico dos canticos; João de Deus inspirou-se da pastoral de Sulem, e fez um poema quasi seu: seu pela fórma, pelo colorido, e pela disposição das scenas.
O Cantico dos canticos pertence, como sabes, ao numero dos livros sagrados, e é ponto inconcusso, entre os padres da Egreja, que os desposorios de que falla Salomão exprimem a união mystica do Verbo incarnado com a natureza humana, com a Egreja e com as almas justas.
Os presidentes da synagoga judaica prohibiam a leitura d'este livro a quem não tivesse mais de trinta annos; e, ainda em tempos do piedoso João Gerson, nem os doutores o liam antes d'essa edade. E de feito nem Theocrito nem Florian deram jámais aos seus idylios aquelle perfume voluptuoso que, por entre flôres de poesia immorredoira, livremente se respira no idylio de Salomão.
Theodoro Mopsueste teve o ousio de ligar a esse idylio um sentido exterior, e não mystico, interpretando-o litteralmente, mas foi condemnado pelo segundo concilio de Constantinopla. Hoje não ha temor de que a Egreja condemne João de Deus, e todos os que separam da poesia o dogma, talvez porque a Egreja, boa mãe, não quer vêr o mundo coalhado de herejes.
E que importam ao leitor as convicções de João de Deus? A alma piedosa que se edificava na contemplação dos amores da Sulamite, pela versão de S. Jeronymo, que perde ella contemplando-os na lingua de Camões? «Para um coração puro, tudo é puro.»—É palavra de Deus, com que o poeta se auctorisa para trazer a lume a interpretação litteral do Cantico dos canticos.
Já agora, apezar da extensão d'esta carta, deixa-me ainda expôr á tua vista algumas das paizagens mais seductoras d'este paraizo de amor, onde a volupia oriental se escoa semi-nua por ondulantes pradarias em flôr. Ouve:
A SALUMENSE.
Sou trigueira, mas formosa,
Moças de Jerusalem!
Senão, vêde o pavilhão
Que arma em campo Salomão,
Se ha coisa mais preciosa,
E por fóra a cór que tem;
Vêde as barracas dos moiros,
Por dentro tantos thesoiros,
Por fóra, negras tambem.
Não vos dê pois isso pena
Ter assim a côr morena:
Minha mãe mandou-me pôr,
Por culpa de meus irmãos,
De guarda á vinha; o calor
Queimou-me o rosto e as mãos
E eu, a vinha, é escusado
Dizer-vos que nem eu tinha
Senão agora o cuidado
De estar a guardar a vinha.
Oh! para que banda vás
Com o gado, meus amores!
E pela folga onde estás?
Bem vês os outros pastores,
E a gente não adivinha.
Eu não hei de andar atrás
D'esses rebanhos sósinha.
.........................
SALOMÃO.
Que enlevo! que formosura!
A pomba não tem de certo
No olhar tanta doçura:
E fóra o que anda encoberto.
O cabello, em quantidade
E tamanho, é singular;
E não me lembra senão
Das cabras de Galaad
Ques lhes roja pelo chão
Em ellas indo a andar.
Os dentes, em tu abrindo
A tua boca, que lindo!
Nem um rebanho de ovelhas
Todas brancas e parelhas
Quando em sendo tosquiadas
Vêem sahindo do banho
D'uma em uma, enfileiradas,
E atrás d'ellas cada uma
Seus dois gemeos d'um tamanho,
Sem ser maninha nenhuma.
Pois a boca é comparada
A uma fita encarnada.
A voz, ouvil-a é um gosto.
Parte a romã pelo meio
Verás as rosas do rosto;
E fóra no que eu receio
Fallar, que me não é dado.
O pescoço, pensa a gente,
Em o vendo de collares,
Que é a torre exactamente
De David n'esses ares,
De baluartes, e toda,
Lá cima, escudos á roda.
Os peitos, é um casal
De corcinhas, que o seu pasto
São açucenas do valle:
Nada mais timido e casto.
E deitam um cheiro á gomma
Da myrrha mais do incenso,
A ponto que ás vezes penso
Que elles são duas collinas
Por onde aquellas resinas
Espalham aquelle aroma.
Se a esta hora me não accusasses de abuso de paciencia, ainda te repetia toda aquella mimosa carta que principia:
Maria! vêr-te á porta a fazer meia,
Olhando para mim de vez em quando,
É o que n'esta vida me recreia.
Acordo até de noite, suspirando
Por que rompa a manhã, e tenha o gosto
De te vêr já tão cedo trabalhando.
Desde pela manhã até sol posto,
Que não tens de descanço um só momento;
Por isso tens tão bella côr do rosto!
E eu pallido, Maria! o pensamento
Não é trabalho que nos dê saude,
—Esta imaginação é um tormento!...[10]
Mas... basta. O livro de João de Deus tem defeitos: escaceia a revezes a ligação dos pensamentos, a clareza das ideias, a exactidão do metro, a perfeição da rima, e não metteria uma lança em Africa o linguista que nas Flores do Campo descortinasse, uma vez por outra, impureza e incorrecções de linguagem. Se, porém, eu mirasse a comprovar, n'esta rapida e singela revista, com os versos de João de Deus a sympathia e a admiração que elles me devem, não seria este o espaço que abrangesse tudo o que alli me pareceu filho d'uma inspiração verdadeira e original. Demais, o poeta não lucraria com estas transcripções a esmo, sobre não poderes fazer do livro uma ideia exacta, á mingua de apreciador conspicuo.