Alexandre Herculano diz bem: a critica em Portugal é impossivel. Mas se nós todos cruzarmos os braços diante dos Ananias da litteratura que introduzem a mercancia do encomio, o servilismo e a chocarrice no santuario das letras, quem expulsará ámanhã os vendilhões, do templo? Já que me não ouvem, prega tu a estas multidões que não sabem o que amam, nem o que detestam; e praza a Deus que a tua voz não seja a voz do que bradava no deserto.

Post-scriptum

Bem avisado andei eu, quando, a proposito dos versos obscuros de João de Deus, tive a franqueza de conceder que toda a gente penetrasse o que para mim era obscuro. Os versos nublosos que lá citei, eram, pelo que me dizem, claros como agua. Um amigo nosso, optimo charadista ao que parece, pôz-me tudo em pratos limpos; e, pelos modos, o nosso Œdipo tem artes para desdar o nó aos mais envencilhados enigmas da mais implacavel Sphynge. Ora eu, que respeito o mysterio mas desadoro o enigma, e a quem nunca charadas desvelaram as noites, não pasmei de vêr luz onde se me antolhavam trevas. O discipulo amado de Jesus não jubilaria tanto, se visse quebrar os sete sêllos do livro que elle viu na visão do Apocalypse, como eu jubilei quando, a par de outras revelações, soube que o individuo que fluctua na fornalha accêsa pelo sopro eterno é o anjo que as lendas piedosas figuram no purgatorio, dando a mão aos que lá se purgam das culpas temporaes para subirem ás regiões do premio eterno.

Pelo que vejo, a decifração não era para fazer suar o cabello; mas confesso-te que, se cem braços eu tivera, como Briareu, para revolver o embotado escalpello da minha critica, cem braços me desfalleceriam diante dos cem olhos d'estes Argos que espreitam maliciosos o rumo indeciso dos mineiros obscuros da justiça e da verdade...

Seguiu-se-me noite de insomnia. Visões estranhas vieram povoar-me o leito. Sobre o meu travesseiro dormiam comigo as magestosas Torrentes de Theophilo Braga, livro de que, em seguida ás Flores do Campo, eu contava fallar-te. Por cima de mim, por cima do livro, emtorno do meu leito, adejavam uns demoniosinhos, microscopicos como os lilliputianos de Gulliver: uns expediam risadinhas agudas, como de feiticeiras em noites de S. João; outros folheavam o livro e dobravam os joelhos por baixo das estrophes de mais levantada inspiração; estes murmuravam monotono kyrie em volta do livro, arrancando-m'o da mão, como da mão d'um profano se arranca a hostia sacrosanta; aquelles desfaziam o livro em tiras, entreteciam com ellas uma corôa, e collocavam-n'a na cabeça. Se me voltava para a direita, os da esquerda escouceavam-me com um arreganho diabolico; se me voltava para a esquerda, os da direita afiavam a pequenina dentadura, e arranhavam-me as pantorrilhas. O equilibrio era impossivel: esmagava-me um pesadelo! Acordei.

Sobre a minha meza de trabalho estava um livro, notavel pela despretenção e suavidade do estylo, e pelo primor da versificação, sobre ser escripto em portuguez sem mistura; mas apenas no frontispicio li o nome de Antonio Feliciano de Castilho, passou-me pela mente a visão das Torrentes, e os lilliputianos da noite acercaram-se do Medico á força, reproduzindo os sarcasmos ou as ovações, os afagos ou as mordeduras, consoante as tendencias de cada qual.

Estava entre a bigorna e o martello, entre a cruz e a caldeirinha. Quem me salvaria de posição tão melindrosa? Um esforço supremo: fechar as Torrentes e o Medico á força, e não aventurar juizo sobre estes notaveis livros.

Suspendo, pois, a revista do anno litterario de 1869, em quanto me vier á ideia aquella visão aterradora. Sinto-me com algumas forças para luctar com os lilliputianos da visão, mas não me sinto com paciencia para lhes soffrer os motejos e os tripudios, as risadinhas e as beliscaduras. Quero dormir a somno solto, e levar estas noites de Coimbra a sonhar sem pesadêlos, em paz com anjos e demonios, e até com os individuos das mais infimas classes animaes.

Não quero luctar como Chatterton. Chatterton luctou, mas teve depois Vigny que o cingiu de louros, immortalisando-o. A troco da immortalidade, ainda eu me atiraria á lucta: ve lá se queres ser o meu Alfred de Vigny.[11]

Candido de Figueiredo.