[2] A Condessa das Galvêas empenhou-se a favor do poeta para elle ser solto.
E tornaste, Pastor, ao teu armento!
E voltaste, Poeta, ás tuas canções!
Brilhou de novo o sol no firmamento,
Fallou de novo o plectro aos corações!
Acceita, excelso Vate, em teu sudario,
Aljofar de saudade—este meu pranto!
Ha quem tenha na terra o teu Calvario,
Ai! mas falta-lhe o teu mimoso canto!
N. Pousão.
+Testamento poetico anachreontico+
Aut prodesse volunt, aut delectare Poetoe Horacio—Art. Poet.
Na solitaria testa já branqueiam
Os desbotados louros,
Que as Muzas algum dia me enramávam
Com grinaldas de rosas
E em dourados anneis por estes hombros,
Ao desdem esparsidos,
Eram do vento alegre o dezenfado.
D'onze lustros ao pêzo
Á carga enorme o corpo já succumbe
Carunchôzo e quebrado;
Ruga senil as faces lavra e cresta,
Sinto estalar os ossos,
Vérgam as costas, não circula o sangue
Na intumecida artéria;
Frio torpor occupa os membros todos,
Vão-me cahindo os dentes
Uns apóz outros, falta o lume aos olhos,
Aos olhos perspicazes,
Que nos d'outros amantes descubriam
Reconditos mysterios;
E sob o véo mais denso e o mais escuro
De travessas Nerinas
Os lacteos peitos, os limões de neve,
Quando de amôr e zêlos,
De susto ou de prazer lhes tetilavam.
Não, meus socios amigos,
Não me custa, não vêr o Sol brilhante,
A rôxa, a fresca Aurora,
O Iris de furta côres, o d'estrellas
Azul manto da Noite
Cá e lá embutido, plantas, bosques,
Loura seara ondeando
Com o bafejado Norte, um horizonte
Immenso e dilatado,
Onde o pincel apura, esgota as tintas,
Toda a Arte, e a Natureza;
Não ver da meiga Lilia as tranças de ouro,
Da trefega Corina
Os gestos, os tregeitos, os acênos
Com que a um tempo engana
Sagaz, dois, trez, quatro, cinco amantes;
Não ver da terna Elfira
Os nedios braços, os cabellos d'ouro;
Não vêr de Clores e Filis
Os rubros lábios, quando a furto beijam
No baile mãos alheias;
Em fim não ver… Não vêr um ar, um rizo,
Uns meneios suaves,
Uns olhos côr do Céo, um alvo rosto,
Eis o que mais me custa!!…
O gáz Celeste, o sácro enthuziasmo,
Que me fervia n'alma,
Já se extinguio de todo; o arrebatado
Giro dos annos tudo
Levou comsigo inexoravel; tempo,
Tempo aquelle venturoso,
Em que eu d'Elvas as ruas descalçava
Cô a ferrage á ingleza,
Na luzidia bota, e quazi sempre
A passo accelerado:
Quando do infausto gallo negras pennas,
Que outras ainda mais negras
Já então me agouravam, o acharoado
Murrião meu compunham;
Quando aurea franja me pendia aos hombros,
Purpurea banda á cinta,
Virgineo sábre ao lado, que impio abria
Profundas brexas, rêgos
Em bêcos e travessas da cidade,
E a azul, e airosa farda,
Obra do insigne meste Nigromante
Em Adonis, em Marte,
Me transformáva. E agora esta sotaina
Da côr de meus peccados!
E azas, que o Sul a bel' prazer meneia,
Qual ronceira falua,
Ou barco d'agua-acima com dous rêmos;
Um chapéo de trez ventas,
Candieiro das trévas c'o a pombinha,
Que topeta com tudo,
E diz a todos—Alto! vade rétro!—
Enorme horrenda aranha,
De que o mesmo S. Bento horror teria,
Que aos nossos Hebreos luzos
O seu Moisés tricórnio me figura,
Ou moinho gigantesco
Ao bravo heróe da Mancha! Então que vezes,
Musico Amphião canóro,
Pedras, peitos crueis tornei mais brandos,
Mais dôces, que o mél de Ibla;
Mais que o alvo assucar do Brazil em ponto!
Quantas e quantas vezes,
Manhozas mães, rapôzas surrateiras,
Finas abelhas mestras,
Féros Dragões, mil Argos de cem olhos,
Que guardávam insomnes
D'ouro as bellas maçans, d'Inâco as vaccas,
Outro Alcides valente
Amancei, enganei c'o ambrozia, o pasto
Da méllica Poezia,
E engenhozo Mercurio ao som da flauta,
Ao som da minha Lyra,
Dos Numes, dom adormeci cantando!
Nem vós, cáros doutores,
Jocoso Valentim, sisudo Salles,
Avicenas peritos
Da nossa cidade, Hypócrates famosos,
Deozes da Medicina,
Nem vôs co' as garatujas Tubalenses,
Infaliveis, heróicos
Filtros, venenos, Sam Migueis, balanças,
Tudo e toda a Pharmácia,
Podiam revocar tam bellos tempos
De saudosa memoria,
Restituir ao pálido semblante
A côr de rosa e neve,
A luz perdida aos olhos, cláros dentes
Ao deslocado queixo,
A deserta cabeça povoar-me
De meus antigos louros,
Tornar-me finalmente á juventude;
Nestores de trez séclos,
Mathusalens de novo já caducos,
E sem calôr, nem forças,
Só banhos e aguas do Jurdão remóçam.
Quando alta noite sinto
Bater na velha porta a férrea argólla,
Cuido que a Parca horrenda
Já vem buscar-me, e que me bate á porta
Com a fouce longa e curva,
Impune devassando, e então a que horas!
Das leis em menoscábo,
A casa, o lár, o azilo, o sancto alcaçar,
Os penetraes sagrados
Do cidadão pacifico e innocente,
Que dórme a sômno solto!
Ah! quando eu lhe cahir nas impias garras
Sabei, ternos amigos,
Minha ultima vontade: não, não quero,
Que a triste campainha
Publique aos mais viventes minha morte
Pelos cantos das ruas,
Que em ádro escuro, em êrmo cemitério
Repousem minhas cinzas;
Nem que o frio cadáver seja invôlto
Em vestimenta escura;
Nem com funebres cirios, negros vultos,
A passo grave e lento,
Mudos cabisbaixos me acompanhem:
Quero que a minha amada
Co' os dêdos de jasmim piedosa e meiga
Meus turvos olhos cérre,
E co' avarento véo, que ao Sol esconde
Glôbos de neve e leite,
E o Sol beijar dezeja, a derradeira
Lágrima então me enchugue
Ao longo pela face escorregando
Em reluzente fio.
Item—que sôbre o feretro me ponham
A lyra, a penna, a espada,
Que seis louros mancebos revestidos
De tunicas bem alvas,
E ornados de odoriferas cape'las,
Aos hombros me conduzam;
Quero que oito donzellas das mais lindas,
Que houver n'estes contôrnos,
Tambem de branco e flores adornadas,
Ao tumulo precedam,
E que em vêz de canções, tristes endeixas,
Ou luctuozas nenias,
Tangendo adufes, charamellas, flautas,
Me cantem sempre alegres
Hymnos do meu Cámões, versos de Lôbo,
De Bernardes, e d'outros
Da nossa antiga, illustre, douta, e honrada
Mas pobre confraria:
Que juncto de hum loureiro e de huma fonte
O sepulchro me cavem;
E não quero que o barbaro coveiro,
Homem sem dó, abutre,
De carne morta nunca farto côrvo,
Cô a ferrugenta enxada,
Com maço funeral, rodeiro e horrendo,
Qual de Hercules e clava,
Meus tristes, velhos e cançados ossos
Môa, desfaça, strua,
E a cabeça me quebre ainda em môrto!
Basta, o que basta em vida!—
Item—mais,—que os mancebos, e donzellas
Em tripudios e danças,
Ao derredór da campa honrem meu nome
Porque estou livre e solto
Já do cárcere da vida, tantos males,
Perigos e cegueira;
Que a par e par, de espaço a espaço todos
Venham mui mansamente,
Lançar-me terra, e flores no jazigo;
E trez vezes batendo
Cô esquerdo pé no chão, por Figueiredo
Brádem trez vezes todos,
Dizendo em alta voz: Em páz descança!
A mesma cerimónia
Se fará em meu dia anniversario
Até ao fim do mundo;
Que findas as exéquias, findo tudo
A donzella mais tenra,
Mais môça, mais mimoza, mais galante,
D'entre as oito que fôrem,
Sélle, cérre o caixão, e entregue a chave
A Márcia, que beijando-a,
Pranto saudôso ha-de verter sobre ella,
Pranto, que dár podia
Ao môrto vida, se tocásse o morto:
E finalmente quero
Que no tronco do proximo loureiro
Em caracteres grandes,
Por que melhor o viajante o leia,
Se escreva este epitaphio.—
«Aqui jaz Figueiredo, que em mancebo
«Seguio armas e lettras;
«Não imitou no genio a Homero e Milton,
«Na cegueira imitou-os;
«Foi das nimphas cantor, cantor d'amores,
«Cantou heróes e guerras;
«Foi sempre ao rei fiel, temente aos Deoses,
«Sempre amigo dos homens;
«Sempre objecto da intriga, alvo da inveja,
«Em todos os estados;
«Quanto lhe foi pesada a vida, agora
«Lhe seja a terra leve!»