A Belêsa antiga morrêra!
Debalde os invasores, num supersticioso temor de parvenus selvagens, tentaram ressuscital-a e com ela o mecanismo complicado e sabio da administração romana.
«Começou-se a restauração dos aqueductos, banhos e teatros; chegou-se mesmo a edificar monumentos novos, como o palacio de Verona e a basilica de Ravêna. Os espectaculos recomeçaram, reabriram as escolas de retórica. Mas os Godos não toleraram por muito tempo similhante regimen. Após a morte de Teodorico, como a rainha Amalasonte tivesse confiado a educação do filho a preceptores romanos, os principais guerreiros exigiram-lhe que a creança{24} fosse educada com os seus camaradas, para com êles aprender a caça e o manejo das armas, conforme era de uso entre bárbaros[2]».
Este episódio melhor que nenhum outro revela a fisionomia moral da Idade Média dos primeiros séculos.
O vinho novo não se acomodava nos ôdres velhos. O pesado estatismo latino embaraçava, sufocava os movimentos de aqueles homens que traziam, de longe, um zeloso culto pela dignidade e liberdade do individuo.
Tudo, na civilisação que o Lacio cultivara ao longo das duas Europas, meridional e central, se opunha e resistia á absorpção. Roma era um estado enorme, disciplinado, culto e homogéneo, a despeito{25} da infinidade de povos diferentes que pela sua Lei se regiam. As suas condições de estabilidade e a manifesta superioridade do seu talento governativo davam-lhe um prestigio tão grande que muitos bárbaros, como os francos, burgondos e wisigodos, não hesitavam em desertar em massa as suas terras, para se colocarem sob a protecção do césar, que nove decimas partes da população do imperio nunca vira e, talvez por isso mesmo, temia e respeitava como a um deus.
Outras e muito diversas eram as condições da sociedade que para lá do Reno e do Danubio ficava. O territorio da Alemanha actual encontrava-se parcelado, dividido por um sem-número de tríbus, que se não estimavam entre si e que, quando não guerreavam o Império, matavam o tempo batalhando umas com{26} as outras. Chefe supremo que coordenasse todas aquelas energias dispersas não havia. Quando muito suportavam, momentaneamente, qualquer condottiere, que a fortuna das armas em certo minuto bafejara e cujo prestigio findava com o primeiro revés ou com a morte, não chegando a criar tradição.
Este permanente estado de briga impedia o desenvolvimento de uma superior cultura do espirito, permitindo unicamente as profissões que podemos alcunhar de instinctivas: a pastoricia, a agricultura e a guerra. Só esta ultima seria capaz de fixar unidade, se fôsse servida por um plano politico nitidamente estabelecido, como sucedeu com a conquista romana. Ora esse plano não existia. A guerra entre os Germanos, porque era motivada por impulsos passionais e sofreguidão de pilhagem, apenas{27} logrou robustecer a barbarie e fomentar a dissociação.
Raça juvenil, fremente de acção e de paixões violentas, afeiçoando o ar livre e os scenarios naturais, que melhor falavam á espontaneidade do seu instincto, não podia intender as serenas discussões do Forum, entre alabastros plácidos e inertes. Para estes homens, que dormiam a cavalo e amavam com a simplesa de animais magnificos, só o que a vida lhes revelava directamente seduzia as suas irraciocinadas preferencias.
Quando se assembleiavam, escolhiam um recanto ao acaso sob a copa de um carvalho tutelar. E, ahi, sentados em calháus asperos, ouvindo o gorgolejar das fontes e o balir dos rebanhos, tumultuosamente deliberavam sôbre uma guerra a fazer ou um crime a julgar.