Que augusta não é pois a missão da mulher sobre a terra! Ah! que se philosophos e poetas meditassem bem no que é a mulher, e, sobre tudo, no que ella pode ser, não haveria um só que não visse nesse ente o oásis mimoso dos desertos da vida! Mas elles não curam de tal: arrancam desapiedados as pennas alvissimas ás azas do cherubim, e depois, vendo-a assim tão ao nivel das cousas da terra, descrêem d'aquillo mesmo em que não souberam crer; andastes errados: acreditae primeiro, sabei o que é a mulher, e depois julgae-a.

Em quanto não fizerdes isto, sereis sempre uns inimigos desleaes e traiçoeiros; tomareis a nuvem por Juno, e direis do phantasma da mulher o que pensais dizer da mulher como ella saiu das mãos de Deos, quando viu que não era bom que o homem vivesse só:--dizei embora o que quizerdes, mas da mulher como a concebo e como ella existe, por mais rios de tinta que derrameis, nunca podereis provar a maldade senão com aquellas razões com que o citado Marquez da peça de Molière provava a maldade de L'École des Femmes--» elle est détestable parce qu'elle est détestable--»[23].

Em toda a parte em que o teu sexo, Elysa, não occupa o logar que lhe a natureza marcou, ahi os povos são escravos, a ignorancia é profunda, e os costumes são barbaros. O adorador de Mafoma compra a mulher, veda-lhe a entrada no céo, prohibe-lhe a leitura dos livros religiosos, afasta-a do tracto commum, e deixa-lhe só nos ferros do harem os erros da superstição e os absurdos da feiticeria: que se segue d'aqui?--que a tyrannia é no Oriente um principio, que a civilisação é nulla, e que a moral é uma palavra sem significação. Cuidou o Musulmano que, fazendo da mulher uma machina, tinha creado a felicidade para si; a felicidade só ella a ha de crear, mas é mister que livre e desassombrada, rainha e não escrava, possa, como a pomba da primavera, adejar sobre a cabeça do homem, ensinar-lhe as aguas mais puras onde deve matar a sêde, e a relva mais macia onde se deve assentar; só a mulher sabe, como a abelha, quaes são as flores que dão mel, mas não lhe hão de crestar as azas na chamma da impureza, que então, materialisado o amor, o homem e a mulher perderão a faisca da divindade que os extremava do resto da creação;--«ou os povos se hão de embrutecer em seus braços, ou civilisar a seus pés--»[24]. Não é com todos os pensamentos cravados na materia que a mulher pode dar ao homem a felicidade; o Oriente não comprehendeu a mulher.

Que terá a filha do propheta para dar á alma do homem quando os sentidos estiverem saciados?--a ignorancia, as paixões mesquinhas, as astucias, os vicios todos da ociosidade, e, na consciencia da sua inferioridade, a tristeza da escravidão, ou as traições d'um inimigo.

E o amor? Oh! esse nunca; esse não sabe morar num calabouço.

Ao cioso mahometano
Que vale o fechado harem,
Se amor de escrava a tyranno
Do coração lhe não vem?
Que importam centos de bellas,
Se uma só de todas ellas
Livre em seu gosto não ha?
Que importa matar desejos,
Que importam, louco! esses beijos,
Se só vendidos t'os dá?
Com alma núa d'esp'ranças,
Como ha de a escrava saber
Que alem de jogos e danças
Tem mais gozos a mulher?
D'esses gozos não sabidos
Como ha de trazer-te enchidos
Os dias que vão e vêm?
Se, dos paes perdida a trilha,
Ella não sabe ser filha,
Como ha de saber ser mãe?
Embora os astros lhe apontes,
Embora mostres os céos,
E uma a uma lhe contes
As maravilhas de Deos,
Ha de dizer-te--que importa?
Se eu tenho fechada a porta
Que leva ao reino da luz?
Que importa, se em vida e morte
Sou proscripta, e minha sorte
Nunca propicia reluz?
Lá quando a dor te accommetta,
Quando rir teu coração,
As filhas do teu propheta
Pranto e risos te darão.
Ouvirá co'os teus ouvidos,
Sentirá co'os teus sentidos,
Viverá no teu viver?
Oh que não!--solta-lhe os ferros,
Despe-lhe a alma dos teus erros,
E a escrava será mulher.

FIM

[1]É crença muito antiga que umas pedras vermelhas, que se encontram na fonte dos amores, devem a sua côr ao sangue de D. Ignez de Castro.

[2]Não quero dizer que descreio das leis da Acustica; sei que ella não só explica, mas até consegue fazer echos:--a palavra segredo veiu aqui para symbolisar que neste, como em muitos outros phenomenos naturaes, em se o homem remontando um pouco, chega logo ás forças centripetas e centrifugas, ou áquelle celebre opium facit dormire, quia habet virtutem dormitivam.

[3]Garrett