Está pois decidido que os poetas são muito melhores do que os philosophos, e que no seu dizer mal não ha injuria comparavel áquella injuria fria, tremenda, meditada, e infinitamente falsa de que as mulheres não pertencem ao genero humano:--quem os tivera feito nascer das hervas! Estes taes não quizera eu nem que as tetas das lobas os alimentassem.

Nunca taes homens souberam
Ler na face da mulher,
Em seus olhos aprender
Nunca taes homens quizeram.
Não viram manar-lhe a flux
Dos labios celeste riso?
Não viram do paraiso
Nos olhos accesa a luz?
Não é d'anjo a voz macia,
Que, vencendo almo pudor,
Te diz ternura e amor
Com tão mimosa harmonia?
Aquelle encanto só seu,
Graças e mimos só d'ella,
Aquella rosa tão bella
Não vem do rosal do céo?
A quem á terra só veiu
Por te servir, por te amar,
D'irmã tua lhe chamar
Parece que tens receio?[17]
Se o teu orgulho não quer
Chamar anjo á formosura,
Deixando ingrata loucura,
Chama-lhe ao menos mulher.
Não pertence á humanidade
Dizes tu, impio! e não vês
Do seio caír-lhe aos pés
Humanada a Divindade?!
Se em ti a crença inda tem
Algum poder, pensa n'isto,
Pensa tu que Jesus-Christo
Foi homem por sua mãe.

O que é admiravel, Elysa, é que na mesma epocha em que se dizia em França que a mulher não tinha alma, appareceram Isabel de Baviera e Joanna d'Arc: aquella entregou a França á Inglaterra para mostrar o poder d'uma mulher; esta deu de novo a patria aos philosophos para mostrar a generosidade feminina; foi Deos que se encarregou de as desafrontar.

Se philosophos e poetas tivessem estudado a mulher: a mulher physica, a mulher intellectual, a mulher moral, já nem syllogismos nem versos lhe seriam tão contrarios; mas que? são como o Marquez que Moliére nos pinta; nem se dão ao trabalho de examinar o que sentencêam, e depois--«je la trouve détestable, morbleu! détestable, du dernier détestable, ce qu'on appele détestable--»[18].

A mulher physica achal-a-hiam na physiologia moderna (na de Hippocrates não), achal-a-hiam tão perfeita como o homem; e se algum d'estes entes deve ser preferido pela delicadeza e maravilhoso da organisação, essa preferencia cabe á mulher, sem contar todavia a belleza externa, nem a graça das fórmas.

A mulher intellectual haviam de encontral-a em Sapho, Heloiza, Catharina, Semiramis, Staël, Sevigné, Coulanges, Lafayette, Bernier, Flaugergues, e tantas outras, que têm regido o sceptro ou a penna com gloria mais que varonil: os preceitos do bello inspirava-os Aspasia a Socrates e Pericles, Ninon de Lenclos a Condé e La Rochefoucault:--sem a mulher os conhecimentos do homem seriam imperfeitos; elle descobriria o que na natureza ha de forte, de grande, de sublime; mas a graça, o mimo, a delicadeza só pela mulher podia ser descoberta. A litteratura carece de imaginação, e a mulher tem na imaginação a principal natureza da sua alma; aqui a vantagem é toda d'ella:--até se não for ella quem povôe o coração do homem das illusões do amor, aonde irá elle encontrar as galas da sua litteratura? Entregue ao positivismo da vida material, sem o fogo imaginativo, de que flores ha de encher os seus livros?

A litteratura e as artes têm sempre devido á mulher ou joias suas, que lhes façam o diadema, ou protecção e influencia, que as augmentem e desenvolvam: foi na côrte de Catharina de Médicis que Henrique o grande, aprendendo a amar, aprendeu tambem aquellas maneiras nobres e cavalleirosas, que distinguiram o seu reinado, dando á sua lingua uma graça e polidez, que não tinha. O gosto e sentimento delicado para as lettras e artes, que Maria e Catharina de Médicis levaram da Italia para França foram a origem do desenvolvimento das artes e das lettras do seu tempo. E não seria á influencia que as mulheres tiveram na côrte de Luiz XIV, que se deveu então essa lista immensa de homens celebres, com que a França se honra, e que o mundo estuda e admira? E não será para agradar á mulher que o homem gera a industria, inventa o canto, a dança, a pintura, amenisa a linguagem com as flores da poesia, traja com esmero, e torna affaveis e doces suas maneiras e costumes? A mulher intellectual não existe só em si, existe nos outros tambem; não se contenta com as suas creações, instiga os outros a crear; e é considerando reunido o que a alma da mulher pode tirar de si propria, e o que a mulher concorre para as producções da alma do homem; é considerando reunido num só ponto o que a mulher é em si e no homem, que eu a vejo tão sublime, tão elevada, que, senão tivera o lado moral para a olhar, já por este lhe podia chamar anjo.

A mulher moral porem é que é a mulher, ou a mulher da mulher. Ou a nós vejamos na sua condição de amante, de irmã, de filha, de mulher e de mãe; ou a consideremos no prazer ou na dor, na ventura ou na miseria; ou contemplemos o que pode pela mulher ser o homem, em quem é sempre ella que imprime a virtude ou o vicio no coração; ou a analysemos no seu throno, que é na vida de familia, ou na hasta publica da vida de sociedade; ou a vejamos na infancia ser a alegria da casa, na juventude ser as delicias do amor, na madureza ser a consolação da alma, e na velhice ser a mestra da virtude; ou seja que nos abrace ou que nos fuja, que nos afague ou que nos reprehenda, que nos ame ou que nos aborreça, a mulher moral é a parte mais augusta da creação.

--«A mulher moral é o infinito--» disse um illustre escriptor[19]; e na verdade só assim se pode definir o mysterio da mulher moral!

A mulher é o elemento mais poderoso da ventura social, mas a mulher moral é o elemento dos elementos. Indagae a origem dos ciumes e, com leves excepções, achal-a-heis na educação, isto é, na mulher; vêdes uma boa acção? Procurae-lhe a fonte, e encontrareis a mulher; talvez que não haja no mundo um só facto, cujo principio ou fim, se bem o averiguarmos, não seja a mulher:--«os homens serão sempre o que as mulheres quizerem que elles sejam--» disse Rousseau[20], e disse uma grande verdade; porque antes que o homem seja cidadão é filho primeiro. A mãe dos Gracchos e dos Corneilles tinha uma alma nobre, grande e severa; a mãe de Voltaire era escarnecedora e de garridas maneiras; a de Byron, até nem os defeitos physicos do filho escapavam á sua maldade; Kant dizia que fôra sua mãe quem lhe lançara na alma o germen do bem e quem primeiro lhe inspirara o amor do Creador, explicando-lhe o que sabia das maravilhas da natureza[21]; Cuvier deveu a sua mãe os successos brilhantes da sua vida illustre[22]; Barnave já com um pé sobre o cadafalso bemdiz sua mãe, que lhe deu na infancia o valor que alli o anima; Lamartine aprendeu nas harmonias do coração materno as harmonias da sua harpa piedosa; em fim, Elysa, se após estes nomes tão respeitaveis e tão illustres é permittido citar o meu pobre e desconhecido nome, sirva elle de mais uma prova, porque o pouco, o muito pouco, de bom que em mim tenho é unicamente a minha mãe, é a ella só que eu o devo.