Injurias de philosophos, essas não sei eu que se possam justificar ou sequer defender; é gente que tem todo o seu viver na cabeça, gente de gêlo, gente capaz de constipar, como disse um Italiano fallando das mulheres da Polonia, e por isso elles offendem porque não amam, offendem porque algum raciocinio bastardo pode nelles mais do que a natureza. Um philosopho ha de dizer-te, Elysa, em tom dogmatico que as mulheres não pertencem ao genero humano[10], ha de fallar com toda a seriedade a favor d'essa these brilhante no concilio de Mâcon[11], ha de escrever que ella é um ente imperfeito na sua organisação[12], e, contente com pertencer á humanidade só pelo lado paterno, cravará a fronte entre as duas mãos, e ficará diante d'um in-folio abysmado na sua intellectualidade unilateral!
Injurias d'estas, Elysa, não têm perdão; abandono os philosophos á tua colera.... ao teu desprezo queria dizer.
Agora poetas, isso é outra casta de gente. Dir-te-hão, é certo, cousas terriveis, dir-te-hão:--
«Mulher pura e fiel não ha, nem houve!
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Raça infame de viboras dolosas
Podesse uma só nau contel-as todas,
E o piloto fosse eu...................[13]
que havia de fazer? deixa lá dizer ao poeta o que quizer; mas crê que se elle fosse o piloto guiava de certo a náu a porto de salvamento. Não ha gente mais trovejadora em suas iras que são os poetas; com a penna na mão todas as vezes que se enfurecem temos vesperas sicilianas; mas, chegada a occasião, vem logo absolvição papal. Embora te diga que não ha mulher, nem houve, pura e fiel, não é cousa em que elle creia; o poeta é todo coração; coração de poeta, se não amasse, morria-lhe no peito, e amar sem crer na mulher é impossivel. Não sei se Milton disse mal das mulheres, o que sei é que elle casou tres vezes.
Elysa, poetas são outra casta de gente que não são os philosophos.
Queres tu ver como elles fallam quando não é o ciume que os inspira? queres ver com que delicadeza se elles desculpam das faltas passadas? ouve:--«Um sôpro divino formou a alma do homem, a da mulher de um beijo delicioso deveu ser formada.... custa a crer como um ente, que é metade da nossa especie, que das duas é a mais amavel metade, a mais carinhosa, em tantas cousas nosso egual para nos attraír, mas com tantas differenças de nós para se nos unir ainda mais; que, se tem defeitos, de nós os recebe, e nos dá em troca sem o cuidar tantas das virtudes que possuimos, custa, digo, a crer como um tal ente, a quem sua propria fraqueza devêra tornar inviolavel, pôde ver-se em todos os tempos, e provavelmente continuará a ser até ao fim dos seculos, alvo e emprego das criticas mais desabridas, e mais grosseiras calumnias......... Qual póde ser a causa d'esta mais que montezinha ferocidade?....... é a causa o mesmo natural instincto, que faz que os soldados em tempo de guerra, seroando entre as armas á fogueira ociosa do seu rancho, encareçam as derrotas do inimigo, e lhe assaquem fraquezas que não tem, para a si proprios accrescentarem animos e determinação para as futuras pelejas--»[14].
Ora eis ahi a linguagem dos poetas quando transfugas dos arraiaes dos levantados se recolhem ás trincheiras d'ellas;--todos esses libellos, que lhes saem das mãos, não são d'elles; é o anjo negro, diabolico, sinistro do ciume que lhes espremeu fel no tinteiro, e escreveu em nome e por conta dos pobres poetas.
E quem não perdoará os furores do ciume?! não sei até se elles são necessarios. Ovidio, que passa por mestre em taes materias, aconselhou-os porque traziam comsigo a redintegratio amoris, a doçura da nova paz; e tão longe leva elle o conselho, que permitte chegar o amante enfurecido a despedaçar os vestidos da sua bella ingrata; tambem Moliére, que não foi sempre francez com as damas, tambem elle os desculpa e se desculpa dizendo:--«ne savez vous pas que les injures des amants n'offensent jamais; qu'il est des amours emportés aussi bien que des doucereux; et qu'en de pareilles occasions les paroles les plus étranges, et quelque chose de pis encore, se prennent bien souvent pour des marques d'affection, par celles même qui les reçoivent?--»[15].
Não sei se Moliére quiz adoptar o principio de Ovidio naquelle quelque chose de pis encore; mas o que um e outro quizeram foi cobrir o ciume com as azas do amor: se eu pretendesse para isso uma auctoridade mais competente do que aquelles dous poetas talvez a tivesse[16]. O que é certo porém, Elysa, e seja com isto que eu dê mate á minha defesa, o que é certo é que por isso mesmo que na mulher se pretende a perfeição, é mister não a lisongear sempre; e o achar todas egualmente sem defeito não sei se é maior prova de indifferença que de amor.