Aquelle tibio da luz; aquelle horisonte dourado e bordado de nuvensinhas diaphanas côr da espuma dos mares; aquelle hymno immenso da terra, que se vai perdendo, perdendo ao longe por seios de cavernas; aquelle vôo da ave, que nos passa por cima da cabeça ao ir aninhar-se na roupagem da montanha; aquelle canto da zagala, que vem do prado com os seus cordeirinhos tão alvos como ella; aquellas brizas perfumadas, que então andam a folgar nas aguas do rio, ou na relva das margens, e que nos vêm depois roçar as faces com a ponta da aza melindrosa; aquelle rugir da folha secca e caída debaixo dos pés do viandante cançado; aquellas vozes confusas que se escutam no casal, que augmentam, que diminuem, que recrescem, e finalmente morrem no silencio; aquelle agoireiro latir do lebreu repetido pelos echos do valle; aquelle fatigado carpir do carro lá ao longe ao subir das encostas; e o sino da aldêa, que no alto da serra está assentada, como pastorinha esquecida a meditar amores; e os céos azulados a vestirem pouco a pouco o manto das sombras; e as sombras a desdobrarem-se nos campanarios; e os campanarios a perderem-se da vista; e a vista a resumir-se no coração; e o coração a afogar-se inteiro no saudoso da tarde, e a tarde com todas as suas galas.... oh! como tudo isto falla á alma uma linguagem ignota, e a deixa naquelle estado scismador em que as lagrimas são mais doces do que os risos do prazer!
As horas da melancolia são as horas da tarde.
Elysa, a mythologia esqueceu-se de nos dizer em que hora do dia tinha nascido o Amor; eu só nesta hora mysteriosa da tarde quizera que elle tivesse nascido; não podia, não devia nascer noutra hora. Não vês tu como ao caír da noite vem sempre um suspiro pendurar-se nos labios em busca d'um irmão a quem se abrace? não vês como é então que a mulher desatina a cantar sem o cuidar, sem o sentir, sem o querer talvez, e como que respondendo a outra voz que a chama? não vês como a donzella, com todos os affectos ainda em botão virginal, começa de adivinhar um segredo, um segredo lindo, que lhe anda entre nuvens no pensamento?
Coração de mulher, qual Philomela,
É todo amor e canto ao pé da noite:
Do amante a voz então entra mais branda,
Mais grata, mais feliz, dentro do peito;
Toldam sombras o pejo, as faces podem
Osculadas córar sem que o triumpho
Lá veja o vencedor escripto em rosas;
Melhor se escuta o frémito dos labios
Suspirando d'amor, pedindo amores:
Póde o sim mais sumido então colher-se,
Fingir que foi acaso a mão tocada:
O rigor feminil, desdens, orgulhos,
Da tarde a viração leva-os nas azas.
Elysa, se tu não fôras unica na terra, se não fôras o archanjo impeccavel que me Deos mandou dos céos para eu crer devéras na virtude, tremeria com a idéa--bastava a idéa--de te veres a sós com um mancebo por tal hora do dia:--é a hora dos amores.
Mas tambem é a hora da religião; não ha momento em que a alma de melhor vontade se eleve para Deos: a oração, Elysa, é tão consoladora, tão cheia de balsamos neste momento! Guarda as tuas preces para esta hora, e dize-me depois se não pensas que as sanctas do céo vieram com mais alegre semblante ajuntal-as no regaço, como flores de maio, e leval-as mais velozes aos pés do Senhor!
A oração é o resultado do amor; o amor é o resultado do conhecimento d'aquelle que se ama; que melhor ensejo queres tu para conhecer o Creador? Esse mesmo véo, que te vai envolvendo quanto enxergas, esse mesmo é uma das suas mais formosas maravilhas:--o silencio que se vai fazendo em toda a creação parece que é feito para que o homem falle; calou-se tudo para que fallasse o monarcha da terra ao monarcha da terra e do céo! Elysa, para te ouvirem as rezas os mesmos anjos se calariam; devem de ser um hymno tão melodioso, tão lindo como o que elles cantam, tão fervoroso como o d'elles, tão angelical como tu mesma!
Se vivessem hoje os Paladinos cortezes, se ainda esse mundo andassem os namorados cavalleiros da edade média, que á ponta de lança vingavam e desmentiam as injurias feitas á belleza, não haveria tanto escriptor, tanto philosopho e poeta, que desacatasse as mulheres.
A logica d'aquelles tempos era valente, tinha argumentos de ferro, que não havia resistir-lhes; se então saísse á luz um livro desleal e villão, logo o auctor sentiria bater-lhe no rosto um guante de campeador, e retinir-lhe nos ouvidos um mentes! d'aquelles, que sempre deixavam uma bainha vazia, ou um nome infamado. Hoje não; hoje diz-se e escreve-se impunemente quanta loucura e descortezia lembra; tem-se dicto das mulheres o que esqueceu a Mafoma, com ser elle dos mais grosseiros devotos, que nunca jámais ellas tiveram. Que de cousas doidas, Elysa, não tenho tambem eu dicto e escripto para ahi a respeito das mulheres?! mas agora cuido que d'esse mal estou curado e desculpado--não tinha encontrado uma só Elysa: e a quem a não encontra que lhe digam que andam anjos na terra? não o acredita. E já que tu foste quem me fizeste renegado, já que a ti devo a minha nova crença, quero que seja o teu livro, Elysa, o campo onde levante pendão pelo teu sexo; mas antes d'isso consente que eu desculpe alguma cousa o meu erro;--não se póde assim deixar um velho defeito sem ter ao menos duas palavras para lhe diminuir o feio, para lhe minorar a imputação.
No dizer mal das mulheres não ha tanta maldade como parece, e d'isto me convencem duas cousas; não as ter nunca visto devéras agastadas com os maldizentes, e serem elles sempre os seus maiores adoradores;--é que ellas bem comprehendem que nessas offensas vai mais amor que odio, é que elles só offendem porque amam. Parece um absurdo, mas que haja coração d'amante capaz de o não admittir, não ha.