E que mais formosa... mais não, a perfeição não tem gráus, que formosa não és tu quando nestas horas da manhã ou da tarde te embeveces a meditar com a fronte encostada á mão, os olhos na immensidade, e o peito arfando brandamente, como superficie de lago ao bafejo das auras! que formosa!
Nunca viste nos teus sonhos de innocencia o teu anjo da guarda a contemplar socegado o socego da tua alma, tão pura como elle? Imagina a tua lindeza pela do teu anjo, assim como pela tua lindeza tenho imaginado a de todos os anjos!
Que formosa não és tu nessas horas!
O pagão se te vira assim na alvorada d'um dia de primavera erguia-te um altar e chamava-te Vesta! Cuidaria ver-te conduzindo pela mão as Estações e o Amor; veria as choréas das Nymphas á volta do teu carro tirado por soberbos leões; veria os Ventos adormecidos ao teu lado, e Ceres, Pomona, e Flora a cingirem-te a fronte com uma corôa de rainha!--o pagão erguia-te um altar e chamava-te Vesta.
Mas no teu templo, minha Vesta... minha Elysa,--enganei-me--no teu templo não seriam as donzellas romanas que conservariam o fogo immortal; ahi o sacerdocio seria todo meu, a chamma immortal estava no meu coração.
Se fosse á hora da tarde que o pagão te visse, que te visse naquelle estado que suspende a alma entre o prazer e a dor, naquelle estado que então te exorna como uma aureola mystica; que te visse como a violeta da varzea, recatada do mundo e rica e feliz na solidão onde reinas, se elle te vira, em vez de te chamar Vesta, chamava-te a Melancolia.
E o pagão chamava-te um bem doce nome! Fôras uma Deusa bem suave, bem mimosa ao coração: Melancolia! que mais feiticeira ficção tem o paganismo para te offerecer? que mais puro, mais arroubado, mais ineffavel, mais divino sentimento ha ahi na terra?
Mais que o prazer, que a alegria,
Mais que a risonha emoção,
É mais doce ao coração
A doce melancolia!
Como é bello, quando o dia
Se afoga no salso mar,
Sobre ignota penedia
Ir co'as vagas conversar!
Ir sósinho suspirar
Juncto a fontinha sonora,
E nos prantos que ella chora
Ir aprender a chorar!
Como é bello então scismar
N'uma scismada ventura,
E aquelles sonhos sonhar
Nunca fartos de ternura!
Como a harmonia se apura
Nas cordas da meiga dor
Quando a rola da espessura
Poisa n'harpa ao trovador!
Quando uns gemidos d'amor,
Gemidos que não sabia,
Sáem da harpa, e ao redor
O echo lh'os repetia!
Como então mais que a alegria,
Mais que a risonha emoção,
É mais doce ao coração
A doce melancolia!
Elysa, se o pagão te chamasse a Melancolia, o pagão chamava-te um bem doce nome!
E as horas da melancolia são as horas da tarde.