Quando o homem, á luz duvidosa da manhã ou da tarde, se assenta no viso d'um monte, na alcatifa d'um valle, na margem d'um rio, no limiar d'uma porta, e d'alli, pairando com a vista entre a terra e o céo, abrange todos os objectos sem se fixar em um só; ouve todos os sons sem escolher um só; sente todas as sensações sem definir uma só; quando o coração, enfeitiçado nestas horas pelo incerto da luz, dos objectos, dos sons, e das sensações, parece embalar-se no peito e adormecer, oh! então, Elysa, então é que o homem conversa com a Divindade, então os ouvidos da creatura ouvem as palavras do Creador!

É por uma donosa madrugada que eu agora escrevo no teu livro, Elysa: é ella que do seu throno de verdura me está dictando este capitulo;--que não possa transportar eu para estas paginas essa pagina tão bella do livro do Eterno! Ainda o sol não desengastou das ondas o seu rosto em braza; uma luz frouxa, crystallina, mimosa, perfumada, espraia-se, como um regato, por sobre toda a natureza, enrosca-se á volta de todos os seres alastrando de esmeraldas a terra e de saphiras o céo; aquelle murmurar monotono, pesado, o enfadonho do dia ainda se não escuta; e as brizas folheando na selva levam de cada folha um som, e lá nas alturas compoem um hymno para Deos!

Elysa, deixa que os ricos da fortuna e os poderosos da terra nasçam, vivam, e morram sem nunca terem visto a face da madrugada; fatigou-os a noite no bulicio dos saraus e das orgias, deitaram-se quando o dia se alevantava; deixa que elles ignorem, que elles não gozem o brilho suavissimo da mais rica perola do diadema do mundo, deixa-os, e vem tu comigo assistir em espirito á festa de todos os dias, ao desabrochar da madrugada:

Eil-a trajando verdores
A linda mãe dos amores,
Com seus volateis cantores
Pelos campos a folgar;
Eil-a folgando na mata,
Que nas aguas se retrata,
Nas aguas de lisa prata,
Na prata do liso mar.
Salve, rainha formosa!
Festeja-te o lirio, a rosa,
Dos jardins a mariposa,
Do trovador a canção;
Festeja-te a pastorinha,
Que nas côres te adivinha
Um pensamento que tinha,
Que tinha no coração.
D'aldêa o sino te chama,
E o moço, que deixa a cama
Porque vai ver a quem ama
Ao pé da encosta d'alem;
Suspiram-te sempre os montes,
Abraçam-te os horisontes,
Choram-te rios e fontes,
Nas fontes d'amor, que têm.
Bemdiz-te o velho, e ensina
Á neta, que é pequenina,
Rezas sanctas da divina
Crença, que tem no Senhor
Bemdiz-te o armento balando,
Do tomilho o cheiro brando,
E o pegureiro cantando,
Cantando magoas d'amor.
Vem, ó linda madrugada,
Vem de violetas c'roada,
Pelas brizas embalada,
Vem nestes campos folgar;
Folga nos céos e na mata,
Que nas aguas se retrata,
Nas aguas de lisa prata,
Na prata do liso mar.

Todo o mundo parece corar de puro gozo, parece que sorri com o sorriso da felicidade quando o primeiro albor da manha lhe corre com mão de jaspe a cortina da noite; é a amante carinhosa, que vai despertar d'um sonho d'afflicção o amante adormecido com um beijo na fronte:--Elysa, se por cada um dos meus sonhos d'afflicção tivesses de me dar um beijo, quantos beijos me não devias! e crê que então não quizera eu sonhar outros sonhos.

Mas como são cheias de galas e de thesouros, para os olhos do corpo e para os olhos da alma, estas horas do alvorecer do dia! O ar que respiramos é mais puro e embalsamado; uma harmonia deliciosissima desferida nas harpas dos bosques, dos rochedos e das aguas, reproduz-se inteira nas cordas intimas do seio, e a poesia acode voluntaria aos labios; é uma poesia ensinada pelos anjos, porque só falla de Deos; é a verdadeira poesia.

De todos os argumentos mais gratos ao espirito, mais poderosos, mais energicos para demonstrar ao homem a existencia d'um Deos, o mais grato, o mais poderoso, o mais energico é a contemplação da natureza. De todas as horas do dia as melhores e as mais bellas para esta contemplação são as horas do crepusculo da manhã e da tarde:--não sei que delicioso anhelar, que doçura saudosa anda então no pensamento, que nas azas da meditação nos arrebata para o céo, e nos desata as cadêas mesquinhas da vida mesquinha da terra!

Os raciocinios da philosophia convencem quando demonstram a realidade da causa primaria, mas a natureza faz mais: depois de convencer gera o amor; o coração não póde deixar de amar a origem das maravilhas que admira. E não sabes, Elysa, qual é a obra das mãos de Deos, que mais me tem convencido da sua existencia? Vais talvez dizer-me que são esses mares a revolverem-se noite e dia á roda dos continentes, esses mares cujas gottas são lettras, cujas vagas são syllabas, cujos bramidos são palavras, que dizem--existe Deos! Vais talvez dizer-me que são as montanhas e os promontorios erguidos como braços da terra apontando para o firmamento! Vais talvez dizer-me que são esses milhões de mundos luminosos gravitando no espaço, e traçando no manto azul da esphera a historia da Omnipotencia! Enganas-te! olha para o teu espelho, Elysa, e lá verás a minha prova mais bella, a minha prova mais segura da existencia de Deos!

O Senhor quiz no teu rosto,
Quiz o impio confundir,
Quiz dos céos todo o composto
N'um só ponto resumir;
Nos olhos pôz-te as estrellas,
Inda mais lindos do que ellas
Os vejo d'amor fulgir;
Poz-te nas faces a aurora
Poz o sol no teu sorrir,
E nas tranças côr d'amora
Fez negra noite caír;
Que o Senhor quiz no teu rosto,
Quiz dos céos todo o composto
N'um só ponto resumir.

Na verdade, Elysa, ver o teu rosto e descrer da Divindade seria o absurdo do atheu positivo; não, não cuides que o atheismo passe dos labios; ha lá dentro do atheu um sentimento, uma voz intima, uma quasi fatalidade, que, mau grado seu, o arrasta e o convence: mas que haja um só tão desgraçado, que o haja que, mercê da minha dama, lhe provarei que mente apontando-lhe para a tua face;--a minha Elysa não podia ser fructo de um acaso estupido, a minha Elysa é a victoria do Eterno!