Mulher-typo! divindade talvez, ou sonho, ou illusão, ou feitiço, ou sombra, realidade, ou nada--eu te amo! E sabes tu como é este amor? escuta:
Já viste duas pombas a devorar o espaço com as brancas azas de seda, correndo, voando, internando-se por esse azul da cupula immensa, ou pousando á beira d'um lago de saphiras, ditosas na sua loucura, loucas na sua innocencia, innocentes nos seus carinhos?--é o amor da pomba; é o meu amor.
Já viste ao pé dos corregos do inverno duas plantas indolentemente enroscadas, teimosas, viçosas, purissimas, cheias de gozo sem futuro, cheias de futuro no gozo?--é o amor da planta; é o meu amor.
Já viste como a rosa, voluptuosamente desabrochada no tugurio verde da sua roseira, é, ao despontar da aurora, tão festejada, tão conversada, tão abraçada, tão beijada e tão adorada pela briza?--é o amor da briza; é o meu amor.
Já viste uma criancinha, que se anda embriagando de folguedos no amanhecer da existencia, e que logo os foge, que os engeita desdenhosa, porque a mãe lhe choveu entre elles, e que desfeita em sympathia risonha, em meiguice, em requebros lhe entreabre os braços e lhe pula ao collo?--é o amor da criancinha; é o meu amor.
Já viste essa mãe carinhosa errar anhelante, desalinhada, com os pés e os braços nus, o cabello desatado, os olhos em lagrimas, o peito a ondular-lhe, os labios roxos e convulsos, a voz embaciada de suspiros, toda ella uma louca, ou antes um mysterio, toda ella resumida num sentimento indizivel, sublime, divino, a calcar abrolhos, a transpor abysmos, a galgar têsos, a olhar, a escutar, a inquirir homens e pedras, a consultar pégadas, a ferir o rosto com uma das mãos, a esmagar os seios com a outra, e tudo em busca do filhinho, que se lhe perdera?--é o amor da mãe carinhosa; é o meu amor.
Já viste o proscripto da patria, assentado tristemente nos pincaros de serra estrangeira, comparando cada pedaço de terra, cada arvore, cada penedo, cada passaro que lhe descanta, cada choupana, cada homem, cada povo, e os ares, e o horisonte, e as nuvens, e as estrellas, e o sol, e o céo; bradar depois pela patria, só pela patria?--é o amor do proscripto; é o meu amor.
Já viste o marinheiro, nascido e criado nas aguas, identificar-se com ellas, namorar-se do seu navio, brincal-o, enfeital-o, acaricial-o sempre, beijar-lhe os cabos e velame, os mastros e o leme, contente vagar pelo estendal das vagas, sorrir ás procellas, sorrir ás bonanças, anhelar do longe uma ilha toda verde, que lhe está acenando na alma, um porto fagueiro, que lhe está alvejando no pensamento, uma estrella da noite, que lhe está radiando no coração; e atirar-se assim de encantado por esse mundo sem raias, a espriguiçar-se nas sensações, a sorver delirios e melancolias suavissimas, ainda que rudes e profundas; ora cavando o pelago com olhos severos, ora analisando o concavo d'um tecto infinito com olhos meditadores; e naquella soidão de que é monarcha, com as suas endeixas e com o seu alaúde, apinhoando lá dentro d'alma cada vez mais desprezos da terra, mais orgulho e fanatismo pelas suas campinas de crystal?--é o amor do marinheiro; é o meu amor.
Já viste o captivo encostado ao marco de pedra, quasi tão quedo como elle, com a fronte enrugada e em cada ruga um concentramento de paixão, com a vista cravada no ferro, que lhe aperta e ennodoa a perna, uma vista tão cravada, tão pegada, que a disseras um martello alli fundido por não poder despedaçar aquelle annel; e uma lagrima a resaltar-lhe das faces ao ferro, como se fôra o liquido que havia de dissolvel-o, e a mão estendida e tesa, e depois um sorriso, um sorriso para a liberdade, para aquelle coração outra vez a bater sem abafamentos, para aquelles olhos outra vez erguidos, para aquelles braços outra vez seus, para aquelles pés outra vez libertos, para aquelle ar que respirava, para aquella casa, aquelles amigos, aquella vida, aquelle mundo, que lá lhe ficou?--é o amor do captivo; é o meu amor.