E já viste, finalmente, o condemnado a quem o vento do sepulchro sacode sobre a escada do cadafalso, que pende para a morte como a hastea que se murcha, e que d'alli, de sobre esse triangulo erguido para vergonha da humanidade, escarneo de Deos, e epigramma da civilização, d'alli arremessa uma vista infinita, insondavel, incomprehensivel para a turba, que brutalmente o festeja, mas para a turba, que elle nunca mais ha de ver: para o mar, que lhe rebrame ao pé como se cantara uma nenia execravel, mas para o mar, que elle nunca mais ha de ver; para os céos, que recamados de sombras como que lhe toldam a esperança desapiedados, mas para os céos, que elle nunca mais ha de ver; para a terra, que lhe floreja ao longe alegre e formosa como se o quizera insultar no ultimo transe, mas para a terra, que elle nunca mais ha de ver; para as memorias d'um passado talvez prenhe de sangue e de remorsos, mas um passado, que elle nunca mais ha de ver; e essa vista resumida, em fim, a luctar entre a mortalha e o vestido, entre o carcere e a corda, entre a corda e a tumba, entre a morte e a vida, alli lhe foge toda para a vida; para a vida, que lhe matam, para a vida tão querida, tão linda e tão doce olhada do cadafalso, para a vida suspirada, gemida, e anciosamente chorada d'aquella altura tremenda, para a vida porque é sua, para a vida porque é boa, para a vida ainda que fora má?--é o amor do condemnado; é o meu amor.

E como o amor da pomba é innocente a amar a pomba, como o amor da planta é viçoso a amar a planta, como o amor da briza é mimoso a amar a rosa, como o amor da criancinha é risonho e meigo a amar a mãe, como o amor da mãe é desalinhado e louco a amar o filho, como o amor do proscripto é gemedor a amar a patria, como o amor do marinheiro é profundo, melancolico e dosprezador a amar os mares, como o amor do captivo é meditado e desejoso a amar a liberdade, como o amor do condemnado é vehementemente desesperado e terrivel a amar a vida, é assim o amor do poeta a uma mulher;--é o meu amor.

E tu és a minha pomba, a minha planta e a minha rosa, a minha mãe e o meu filho, a minha patria e os meus mares, a minha liberdade e a minha vida!--Mulher! eu te amo, eu te amo!

Agora, Elysa, que já te paguei as primicias do livro, não só como senhora d'elle, mas como senhora da alma que o dicta e da mão que o escreve; agora que já te defini o meu amor, que mil vezes ainda será aqui definido, e que nunca o virá a ser ao cabo; agora que tu chegaste, de certo, á janella do teu quarto, e te embeveceste nos encantos da noite a recordar-te dos meus versos, deixa que me volte para a minha lyra.

São os meus segundos amores: é ella tão minha e tão formosa como tu; é a minha companheira e consoladora; é quem me ha de ajudar neste trabalho, que te destino:--plantou-m'a Deos dentro da alma para saber amar-te, como te plantou a ti no mundo para que te amasse.

Quero muito á minha lyra.

O meu primeiro pensamento ao acordar é sempre teu, o segundo é sempre d'ella; nas minhas meditações e nos meus sonhos, nos meus risos e nas minhas lagrimas, vindes sempre ambas tão casadas, tão unidas, tão irmãs, que eu não sei se és tu que me trazes a lyra, se é a lyra que me conduz a ti.

Quero muito á minha lyra.

Vou conversar com ella, e preludiar-lhe ao acaso uns sons desleixados, que lhe são queridos, um vagar delicioso por veigas da phantasia, um esquecer a delirar por saudosa noite, á margem do Mondego, sob a rama de um salgueiro.

E que mimoso luar de primavera ahi se refrange, e espalha uma poeira de prata na superficie das aguas!