É por uma d'estas noites suavissimas de luar que a natureza tem toda a lindeza de mulher.
Canta, vento do sul, teus doces cantos
Por concavos do val adormecido,
Tange n'harpa de Deos, nessas folhagens,
Da noite as harmonias.
Farta agora, Mondego, com teus beijos
As boninas, que tremulas desmaiam,
Que se morrem por ti na sêde louca
De lubricos prazeres.
Banha-me a accesa fronte, meu salgueiro,
De meiga fresquidão, que ha de inspirar-me
Desassombros do sol, da luz, do dia,
Que se afogou nos mares.
E tu, filha d'amor, candida lyra,
Um abraço dos teus cinge ao teu bardo,
Outro mais.... este só... agora folga,
Folga por céos e terra.
Amo o tibio clarão do argenteo disco,
Porque a luz do luar não cega os olhos,
Como faz a do sol, porque me deixa
Nesse lago d'anil, que vai sulcando,
Namorar-lhe a belleza;
Amo a languida côr do ingente espelho,
Onde os olhos d'amantes vão casar-se;
Onde crêra talvez Grego ingenhoso
Que o velho Jove, requintando as galas,
Ia mirar-se, rindo.
Eu amo, já pagão, na branca esphera
Da casta Delia envergonhado riso,
E já lá finjo negrejando os bosques,
Onde co'a turba caçadora exerce
Seu culto pudibundo.
Amo as rosas do céo, que se emmurchecem
Quando a lua vaidosa as vai pisando,
Amo as nuvens co'os seios bipartidos
De respeito alastrando eburnea senda
Á rainha dos astros.
Amo a grenha voando ao meteóro
Quando pallido foge ante os seus passos,
Amo tudo o que assim lhe paga um feudo,
Outro feudo melhor, que não meus versos
Engeitados da vida.
Noite! noite! que mão te ha desdobrado
Tão risonha e fagueira assim no mundo?
Do templo do Senhor és véo, que os anjos
De infindos orbes d'oiro recamaram?
És lavrado padrão da Omnipotencia,
Memoria erguida em campos do infinito?
Milhões de soes, que ostentas, serão tochas
Ardendo ante o teu Deos no altar immenso?
Serão letras d'amor com que lhe escreves
Nessa pagina azul o ignoto nome?
Tuas nuvens que são? são do thuribulo,
Que agitam cherubins aos pés do Eterno,
Queimado incenso a desfazer-se em fumo?
Noite! noite! quem és? d'onde has tu vindo
A poisar-te na terra entre mysterios?....
Não sei que ternas meiguices
Falla a noite ao coração;
Minhas horas mais felices
As horas da noite são:
Com ella na solidão
Suspiro amor e saudades,
E com ella nas cidades
Não largo a lyra da mão;
Suspiro, canto d'amores
Entre os homens, entre as flores
De noite, de dia não;
Porque a noite tem meiguices,
Porque as horas mais felices
As horas da noite são.
Como é lindo este Mondego
A brincar sobre esta arêa!
Como é lindo o bosque verde,
Que as verdes margens sombrêa!
No seu crystal derretido
Lá vem, á luz do luar,
Outro Narciso, um salgueiro,
Um salgueiro a namorar.
Outra Echo, a briza doida,
Que foi por elle engeitada,
Anda carpindo, e zelosa
Traz a limpha alborotada.
Cuida que mora lá dentro
Escondida uma rival,
E por dar-lhe invejas solta
Perfumes, que traz do val.
Raivosa tolda co'as azas
O liso espelho brilhante,
Cospe co'as azas, raivosa,
O Mondego ao seu amante.
E o pobre, por si perdido,
Sacode a fronte singela,
Murmura um ai; mas teimoso
Busca n'agua a imagem bella.
Como é lindo este Mondego
A brincar sobre esta arêa!
Como é lindo o bosque verde,
Que as verdes margens sombrêa!
Como a fonte d'Ignez soluça ao longe!
Parece inda chorar-lhe a morte escura,
Osculando na pedra eternas manchas
Do sangue espadanado[1]
Como os cedros a côma baloiçando
Inda vergam de dor, inda meditam
No caso triste de memoria digno,
Que desenterra os mortos!
Alli d'um terno amor ternos momentos
N'aza do tempo languidos fugiram,
Naquelle engano d'alma que a fortuna
Não deixa durar muito!
Dos suspiros de Ignez na penedia
Inda os echos vagando ás horas mortas
Murmuram brandos ais, e aos sons da lyra
Respondem gemebundos!
Quero muito á voz solemne
Dos echos da solidão;
São amigos invisiveis
Com quem falla o coração.
É tão doce nestas horas
Poder assim conversar,
Ouvir do nosso queixume
Novos queixumes brotar!
Chamar aquella que é longe,
Chamar aquella que se ama,
E o som d'amor e saudade
Não morrer na voz, que a chama!
Sentar-me ao pé d'esta fonte,
Que tão pura se deslisa,
Clamando--Elysa!--e dos montes
Outra voz clamar--Elysa!--
Quero muito á voz solemne
Dos echos da solidão;
São amigos invisiveis
Com quem falla o coração.
Mas quem pode formar taes sons no bosque?
Será perdido amante a penar magoas,
Desprezos da que amou, desdens de bella,
Injurias d'um rival, ou será nympha
Que um ingrato engeitou, e alli chorosa
Inda, louca d'amor, serve aos amores?
Oh! falla, quem és tu, filho da selva?....
Silencio... respondeu... maldicto vento!
Que só pude escutar--filho da selva!
Embora! fique embora isso em segredo,[2]
Saiba-o sómente Deos!
Tambem segredos, que meu peito encerra,
Só se dizem nos céos.
A turba ha de escutar-me, e cada nota
Será nota d'amor!
Mas ouvidos da turba não entendem
Carmes do trovador.
Emmudece-te, ó lyra; e tu, ó noite,
Apaga o teu luar,
Das trevas no pallor deixa-me um sonho
Com Elysa sonhar.
E a lua ja roça as cumiadas do monte, e pouco a pouco se enterra por elle abaixo... ahi ficam agora na escuridão as margens do Mondego, tão saudosas como amante feliz na hora de um adeos, sellado com beijos... ahi se empoleiram as auras pelas hasteas do choupal, cançadas de abraçar a roxa fronte das violetas... já não se lhe escuta o frémito das azas nos seus brincos innocentes.... faz-se um silencio longo em toda a natureza... e só as rãs veladoras continuam na voz unisona e aguda o hymno da creação!
Elysa, é tempo de pedir a Coimbra uma casa, á casa um leito, ao leito um somno, ao somno a tua imagem.
Como o teu livro, Elysa, é fructo das horas roubadas ao remanso, e talvez ao estudo, nesta bem-aventurada Coimbra, quero fallar-te de Coimbra!
Cada povo tem a cidade da sua poesia, da sua imaginação, dos seus amores; cada povo aponta para uma terra, que a tradição vestiu de galas, e diz--lá, lá! oh! que não ha nada mais bello!
O portuguez aponta para Coimbra.
É das recordações d'esta cidade que o velho se nutre, e nutre os filhos ao serão do seu lar:--quando eu estava em Coimbra! eis-ahi o exordio de todas as aventuras de um pae; e a saudade, tingindo de roxas e mimosas côres todo o discurso, engrandecendo tudo, louvando tudo, e chorando por tudo, leva o ancião á peroração de rigor--não ha já tempo como o meu tempo de Coimbra!
Para o amor maternal é a terra dos seus sustos, porque é a terra dos rapazes; mas nesses mesmos sustos, no longo esperar do abraço filial encarnou-se não sei que doce sympathia para aquella cidade, que faz chorar e rir toda a casa; é o gosto amargo da saudade, é o
Delicioso pungir d'acerbo espinho[3]