Dizei a um aldeão que lhe ides contar uma historia de Coimbra, e logo o tereis quedo, pendente de vossos labios, já certo do maravilhoso, ou do travesso do vosso conto.
Perguntae ás amantes por Coimbra: haveis de vêl-as córar, como tu agora córaste, Elysa; e depois responder com um suspiro envergonhado--oh! Coimbra!.... e o resto que lá fica em seu pensamento será uma inveja, mas não é desamor para a terra que anda sempre casada ao amanhecer e anoitecer de seu coração.
Perguntae ao mancebo, que só ouviu o que vai pelas margens do Mondego, sem nunca ter pisado as suas arêas de oiro, perguntae-lhe por seus desejos, e elle vos dirá simplesmente--se eu podesse ir a Coimbra! e ahi deixa resumido o scismar de longas horas.
Até a sciencia e as letras olham sempre para Coimbra como para a terra da promissão;--a nossa esperança, dizem ellas, cada dia, cada anno, cada seculo, a nossa esperança está lá!
Se aqui vierdes, ouvireis, é certo, a muitos dos que se assentam ao caír da tarde no Penedo da Saudade a curtir magoas de ausente, ouvir-lhe-heis maldições contra Coimbra; não os acrediteis, não; é aquelle absurdo do coração humano, é aquella saciedade na posse, é o nunca-satisfazer dos desejos do homem, o desprezo do que já tem, trocado pelo anhelar do que ainda espera; mas, se fordes inquirir esses mesmos, uma hora antes de deixarem Coimbra para sempre, ou elles não têm alma afinada para as melodias da terra, ou elles vos dirão com as lagrimas nos olhos--podera eu nunca deixar Coimbra! É que lhes ficam aqui as horas mais descuidosas, mais doces, mais felizes da mocidade; é que lhes ficam aqui as amizades, que não morrem mais, a liberdade, que mais não volta, e estes ares purissimos, este céo purissimo, estas aguas purissimas, esta Coimbra unica!
Ah! como lhes ha de apparecer em sonhos este archanjo de pedra assentado no seu tapete de flores! Coimbra!... hão de descobril-a de longe, vestida de branco, morbida, formosa, voluptuosa, modesta, a metter seus pés de marmore na prata do Mondego; a devassar o seio das nuvens com o capacete da sua torre, como se fôra estatua de Minerva; com seus braços estendidos a afogarem-se em açafate de esmeraldas; com a sua ponte orlada de vultos negros, que se debruçam na corrente como os salgueiros da margem; com a cintura azul de mil outeiros, que ao longe fecham o seu largo horisonte; com toda esta belleza, este encantamento, esta feminidade de donzella, esquecida na relva d'um prado a tanger um hymno d'amor, com os olhos no céo!
Ahi tendes então os blasphemos arrependidos: Coimbra não é só a tortuosidade e estreiteza de suas ruas, não é o som lugubre do seu sino fatal, não é o suspirar por quem vive longe, não é nada d'isto; é a terra das suas saudades, é a saudade da sua poesia, é a poesia da sua vida!
Se um d'esses homens for poeta... e quem ha que o não seja depois do baptismo da sombra d'estes salgueiraes, do perfume d'estes campos, do crystallino d'este ambiente, da doçura d'estas aguas, da verdura d'estes montes, da fresquidão d'estas brizas? aqui a poesia bebe-se pelos olhos, pela bocca, pelos ouvidos, sem o querer, sem o cuidar, sem o sentir; cada pedra, cada tronco leva inspirações ao amago do seio, que desatina a cantar como a zagala ao desabrochar do dia, ou como a avesinha, que saúda a primavera; aqui murmura melodias o ciciar da aragem nas flores da collina; o scintillar da lua quando num tecto de saphira pende accesa como lampada de sanctuario; o ardor do sol, quando se alastra em diamantes por cima do estendal da arêa; o echo a responder sonoro ás palmas d'um folguedo; a vara do barqueiro a resvalar nos seixinhos do rio; o lavadouro da tricana, que geme debaixo dos seus golpes, menos duros porque os acompanha uma cantiga de amores!--até os nomes dos sitios têm aqui uma suave harmonia, como preludio de canção, que deixa adivinhar-lhe toda a lindeza!.... Mas não vês, Elysa, como eu vou longe do que ia dizendo? era Coimbra, que me arrebatava nas ondas da sua poesia; foi uma nova prova do seu poder;--voltemos porém ao primeiro proposito.
Se um d'esses homens for poeta, irá assentar-se no limiar da sua porta, quando a tarde vai caíndo nos braços da noite, e alli o vereis a cantar; segui-lhe o canto... não ouvis? aqui fallou d'aquella fonte,
Que lagrimas são a agua e o nome amores;[4]