alli gemeu com a desditosa Castro á sombra dos cedros seculares; agora um som festival lhe escapa ao recordar-se da Lapa dos Esteios, onde se lhe escoaram deleitosos momentos por sobre alcatifa de violetas e boninas; logo suspira nas cordas da harpa aquella Maria Telles tão sem ventura, a quem a mão do esposo ceifa a rosa da vida no descuido da noite; lá se lhe accende o estro na labareda do enthusiasmo, porque se recordou d'aquelle cavalleiro d'antes quebrar que torcer,[5] que fecha as portas da cidade ao rei cheio de vida e de poder, e leva as chaves d'ellas ao rei sem vida e sem nada; eil-o depois encostado ao tumulo de D. Sisnando, a misturar nos seus versos o saudoso da religião, inspirado pela fronte carcomida da cathedral veneranda que viu nascer a patria, e que tem visto morrer tantos seculos!
Olhae como vos diz que Coimbra é
Cidade rica do sancto
Corpo do seu rei primeiro,
Qu'inda vimos com espanto
Ha tão pouco tempo inteiro
Dos annos que podem tanto.[6]
Silencio... não vêdes como lhes resumbram no seu cantico uns nomes tão feiticeiros...
Da saudade o penedo! que amores
Á minh'alma, aos meus olhos não é!
Lindo cesto de graça e verdores,
Verde ramo do monte ao sopé.
Dos suspiros a gruta mais longe
Recolhida se foi meditar.
Só poeta, só ave, só monge
Póde á gruta os segredos vulgar!
E aqui lhe escapa depois no fundo arrebatar do pensamento grave um nome grave como elle--o Penedo da Meditação! mas de volta para a cidade pára diante da gradaria soberba de soberbo jardim erecto pelas mãos sagradas d'um Bispo[7] e exclama
Salve, terra mimosa! a ti meu canto
A ti meu coração, minhas saudades!
E o echo, ou de cortez, ou de agradecido, responde-lhe de dentro do arvoredo o derradeiro verso
A ti meu coração, minhas saudades![8]
Que é tudo isto, Elysa? que é todo esse cantar d'aquelle homem já longe de Coimbra? Não é, não póde ser, não ha de ser nunca outra coisa senão o transumpto das perolas, que a patria de Sá de Miranda lhe engastou na alma, e que a memoria ha de vasar sempre do seu thesouro todas as vezes que o poeta pegar na lyra.