EXCELÊNCIA! Se, em nome do Município de Coimbra, eu brindo, jubilosamente, ao Excelentíssimo Presidente da Nossa República, como cidadão português, eu não posso deixar de brindar tambêm em{6} Vossa Excelência a pessoa alta e nobre do Excelentíssimo Dr. António José d'Almeida, como figura aureolada pelo nimbo esplendoroso das mais lídimas virtudes cívicas.
A sua estatura moral não é função, apenas, dum determinismo político, porque as proporções elevadíssimas do molde social, em que se enquadra, ampliam-se pela exuberância do prestígio pessoal que Vos ilustra; com a dignidade da elevada Magistrura que representais, defronta-se altíssimo, tambêm, o pedestal de todos os corações que Vos elevam à suprema incarnação dos nossos sentimentos patrióticos.
Jámais, na atmostera bucólica desta terra linda, tão impregnada de lirismos poéticos, esvoaçou a pomba alada dum espírito, que mais se desprendesse do tremedal da terra para o céu dos altos ideais; e foi nessa altitude ampla da ideia que um forte amor patriótico vos inspirou o pensamento scintilante e fogoso, revelando vosso génio dominador e empolgante, pelo brilhantismo do Verbo ao serviço de radiosa esperança.
Essa alma, exuberante de aspirações generosas, faiscando em reflexos diamantinos de puros sentimentos iluminados, ensaiou aqui suas asas de condor, a pairar sobre o pântano duma monarquia pútrida, naquele vôo firme de águia que só poisa nos píncaros da crista montanhosa; e, sempre imerso no azul das alturas, respirando sempre e só o oxigénio{7} dos ares limpos, jámais conspurcando-se ao contacto da Terra suja, irradiou daqui o vosso verbo luminoso como luz de névoa doirada que fosse despedida do alto, a espargir clarões de redenção sobre os negrumes desta Pátria, que se esfacelava no Calvário da História, agonisante de impotência, exangue de vitalidade, num pessimismo sem alentos, exausta de futuro e moribunda de esperanças.
Foi aqui que Vosso Coração, abrasado num patriotismo ardente, se acrisolou nas chamas do ideal libertador; e, ao fogo das próprias inspirações, ganhou a incandescência que vos fez astro, a refulgir no Céu da Pátria, entre todos os que muito brilham nas órbitas da nossa História.
Rasgando a nuvem torva que ensombrava os horizontes do futuro à vida da nação, fulminaram os raios da vossa eloquência a luz daqueles relâmpagos, com que a palavra inspirada do tribuno mais empolgante abria os olhos ao povo, sobre os negrumes da hora triste que passava.
E essa língua em labaredas, verbo em chamas purificadoras, feito cautério de luz e fogo, aplicou-se à terapêutica deste país, fistulando o abcesso da corrupção política, que lhe corroía as fibras da acção e estrangulava os anceios de Liberdade.
Mas, revolvendo os miasmas do pântano, por muito que nas rajadas do seu verbo redemoinhassem as toxinas da podridão que agitava aos ares, jámais a assepsia rigorosa da límpida atmosfera do seu{8} espírito, se contaminou da virulência menos leal duma ideia duvidosa ou facto suspeito, que infiltrasse leve sombra na pureza austera da sua alma imaculada sempre.
Nessa luta ingente, de ímpetos e ardores indomáveis, que vos encheram de convulsões épicas a grande vida de revolta até 1910, nunca, como Vós o dissesteis--«o braço se erguia para dar um golpe sem a outra mão desabotoar a camisa desnudando o peito ao ferro do inimigo».
Os exemplos comoventes daquela lealdade heróica com que algumas figuras de lenda, desde a aurora incipiente da nossa infância nacional, bafejaram alguns episódios épicos da nossa História, resurgiam no coração do Exmo. Dr. António José de Almeida, a bafejar do hálito de idêntica lealdade generosa os arrebois dessa madrugada, em que a aurora dos sonhos ideais ia romper definitivamente, com o sol esplendente da Liberdade fulgindo no carro triumfante da República.