Tal era a neta da cabocla de Ourém.
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Similhante despreoccupação, entretanto, devia de achar um termo. Paquinha, um dia, amou. Despertando, manhã alta, no amplo, macio leito do seu excellente chálet, á estrada São Jeronymo, foi com uma pontinha de descontentamento que verificou a ausencia de Julio, o seu companheiro da vespera. Porque, esse dissabor, se o mancebo ficara de partir pela madrugada, sem a accordar? Nem ella propria, ao principio, soube definir bem o traiçoeiro mal-estar; e apenas quando lhe notou a insidia, foi que desconfiou do novo sentimento, esboçado por uma saudade melancholica.
Ergueu-se contrariada, de mau humor. Nem mesmo o banho, saturado d'ervas cheirosas, conseguiu tranquillizar-lhe os nervos. Almoçou pouco e, em toda a tarde, conservou-se reclusa, auscultando a alma. De um natural ingenuo, admirava-se da surpresa d'aquelle affecto incipiente. Discutiu probabilidades de outras causas,—ainda inclinada a não attribuir a uma origem passional a sua preoccupação. Mas atraz de quantos argumentos a volição lhe inspirasse, via sempre o perfil do mancebo que a impressionara,—sorridente perfil, cujo maior encanto residia, certo, n'um ar de meiguice e ternura, que não estava acostumada a ver no rosto, simplesmente luxurioso, de seus habituaes convivas. Sentiu como se no palacio dos seus sonhos se houvesse rasgado uma grande janella, toda ornada de flôres odoriferas. Por lá entrava a luz, a bemdita luz de um sol de felicidade; e entravam tambem auras bemfazejas, varrendo-lhe o intimo do coração. Á rapariga, então, acudiam aspirações novas, uma ancia, até ali desconhecida, empós do idéal,—tudo mal definido ainda, porém já pregosado com intima volupia. Como era bom aquillo, apezar de dar-lhe um todo-nada de incomprehensivel soffrimento moral! Seria isso o amor?
Quando anoiteceu, tornou ao banheiro, para a copiosa ablução vesperal. Jorrando na larga piscina de marmore, a agua cantava branda melopéa, que fazia pensar nas yaras. Frascos de vinagres caros aromatizavam de essencias o ar humido. E o amplo espelho do fundo,—a um canto do qual De Angelis, o pintor sacro-mundano, traçara, com o seu pincel malicioso, uma adoravel nudez de caboclinha com feições de archanjo,—expandia a polida superficie, como n'um enorme bocejo de impaciencia, á espera d'ess'outra nudez animada, que estava para vir confiar-lhe as suas mais capitosas intimidades.
Despiu-se Paquinha, qual um automato. As mãos, errantes, desabotoavam e deslaçavam, sem segurança; o espirito, alheado, vagava longe, contornando de osculos mentaes a imagem ausente de Julio. Só a sensação da agua fria trouxe Paquinha á realidade. Com certeza, amava ao rapaz. E, alfim convencida, disposta tambem a conquistal-o, entregou-se, com redobrada attenção, ao preparo de todos os artificios da galanteria feminil. O espelho, deante do qual, ao sahir do banho, patenteou o corpo inteiro, n'um brando arrepio mádido, mostrava-lhe com fidelidade os requintes da mais triumphante belleza. Pois era preciso realçar taes dotes, empregal-os com arte, com uma ascendencia discreta, para a realização da conquista projectada. E, n'um derradeiro olhar, satisfeito, ás proprias fórmas,—olhar encerrando beijos,—Paquinha teve a convicção da victoria próxima.
Em pouco tempo, quanta mudança n'essa mulher, já tão diversa da primitiva neta da cabocla de Ourém!
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A seducção começou n'aquella mesma noite, no baile da Rapioca. Ao magote de mancebos que affluira á porta da sala, a solicitar valsas e polkas, respondeu ella, sorrindo, estar já compromettida «para todas as danças». E logo, com uma leve anciedade, os negros olhos tentadores de Paquinha perscrutaram o aposento, procurando Julio.
Lá não estava o rapaz. Se tinha vindo? perguntou a um janota. Ante a resposta negativa, pulou-lhe um sobresalto no coração, como se algo lhe faltasse de subito na integridade da existencia moral.