Silverio, com um estremeção, voltou á vida exterior, buscando descobrir quem falava. Era o cocheiro,—o Cadete ou o Bruzegas,—á porta do Club, encarapitado na bolêa, a denunciar em soliloquio cada intermissão na luz do foco electrico mais próximo.

—Feliz mortal, murmurou Silverio, invejoso da despreoccupação d'aquelle homem.

O Riche, a cuja porta cabeceava o proprietario, estava sempre illuminado; e o servente, fatigado alfim de ordenar mesas e cadeiras que ninguém desarrumava, ia toscanejando, mesmo de pé, escorado á cêrca de uma das mangueiras. Cessara de todo o movimento de transeuntes. Os demais cafés da avenida haviam fechado. Pelas janellas abertas do Universal, desciam ondas da illuminacão dos salões desertos. Nos dois passeios, varredores urbanos passavam sobre o cimento, em largos gestos, longas vassoiras de sacahys. E bem adeante de si, viu Silverio, ao meio do enorme quadrilongo, com o pedestal rodeado de fulgurantes globos electricos, erecta no alto da desproporcionada columna, a estatua da Liberdade, emergindo por sobre a folhagem da arborisação.

—Liberdade! Não ser eu também livre! murmurou suspirando. E, mau grado o seu empenho em distrahir as idéas, voltou a concentrar-se nas maguadas recordações da propria desgraça.

Casado ha quatro annos, com uma compatriota, uma italiana, a quem aliás déra logar em seu leito por um impulso de generosidade, ante a extrema pobreza dos paes d'ella, a breve praso começou a verificar que disparidades capitaes de genios e educação os incompatibilisavam para a vida commum. Ao principio, insignificantes arrufos chegaram a offerecer-lhe um sabor novo na existencia: das pazes que se lhes seguiam vinha um renascimento de ternura, uma ineffavel delicia para a intimidade dos longos e mudos amplexos. Illusorios aperitivos, taes amuos. A pouco e pouco avultaram, tomaram corpo, assumiram as proporções de graves pendencias barulhentas. A mulher tinha a bóssa da loquacidade desenvolvida; e, quando se enfurecia, eram interminaveis gritarias, que o desesperavam na razão directa do natural socegado e taciturno do infeliz.

Aggravou-se depois esta situação, já bem penosa, com a intromissão dos paes de Luiza. A sogra levou-lhe para o lar a contribuição de torturas ineditas. A cada gesto, a cada passo de Silverio, uma recriminação. Embalde buscava o pobre comprar a paz do lar á custa de pequenos presentes para seus tres algozes: nada prestava, tudo de infima especie. «Já viram homem tão falto de gosto?» O Silverio experimentara ao principio chamar á ordem a mulher, com o auxilio de raciocinios discretos, arriscados a medo, mansamente, meigamente. Emtanto, por amor dos dois filhinhos que tinham surgido entre accessos de raiva e curtas calmarias, sacrificou todo o resquicio de sua virilidade moral: recolheu-se ao impassivel silencio de quem acceita resignado a brutalidade do destino. Quando rebentavam-lhe no lar os grandes temporaes, recolhia-se a um quarto, embrulhava-se na rêde, tapava ambos os ouvidos. E mulher e sogra, espicaçadas pela inesperada evasiva, iam levar-lhe a saraivada das invectivas superagudas, esganiçadas em falsete,—emquanto o sogro, impando da farta bonaxira de malandrim obeso, fazia em voz cava os soturnos trovões das ameaças: «Hei de quebrar-te as pernas, cão!»

Todo o seu affecto reverteu para as duas creanças, um pequeno e uma rapariguita adoraveis, que chegavam a ter graça, tal a sua candidez, mesmo repetindo em timidos balbucios as calumniosas exclamações da velha: «Papae é mau! papae é feio!»

Feio, sim, e não era por sua vontade que nascera com uma caraça espalmada, que o sol da America do Sul tostara duramente. Mau, porém, não; e em silencio protestava contra o qualificativo. Dizia-lhe a consciencia não ser merecida a apostrophe; comtudo, sem escorraçar os meninos com a mais leve sombra de censura, tomava-os ternamente pela cinta, sentava-os ao collo, um em cada joelho, acariciava-os de manso, amimava-os, cobrindo-os de beijos e de silenciosas lágrymas.

De tudo isto lembrava-se o desditoso Silverio, inerte no banco da avenida, as pernas entorpecidas pela demorada immobilidade. Ainda ha pouco, ao anoitecer, houvera em casa uma terrivel scena. Persuadira-se Luiza estar o marido auferindo grandes lucros n'uma industria inaugurada mezes antes, lucros que desviava ás occultas para a Europa. E deu para exigir-lhe «a sua parte no negocio». Sogro e sogra tinham acudido com argumentos e gritos: «De certo, é preciso pintar já para aqui os cobres!» E, desenvolvendo preceitos juridicos, explicava o velhote que «a não cohabitação material dos conjuges recolhidos sob o mesmo tecto não impedia a co-participação na pecunia». Dispensou-se de se desculpar, o Silverio; e, para não irem mais longe os brados, que estavam já a incommodar a vizinhança, tomou dissimuladamente o chapéu, fugiu precipite rua adeante, até á avenida. Ali, ao menos, estava fóra da socerina alçada. Safa!

A vista da estatua suscitara-lhe a nostalgia da liberdade. Relanceou um olhar pelo passado, desde a sua chegada a Belém e pasmou de ainda sentir dentro de si o que se chama um coração e uma alma, após soffrimentos tão longos e tamanhos. Onde teria elle o bomsenso, já revelado desde a adolescencia, quando commetteu a leviandade de casar com Luiza? Nada o libertaria agora, porque a sua inteireza de animo, a sua correcção nativa lhe vedavam o supremo recurso da fuga. Prendiam-n'o ao cepo abençoadas cadeias: os filhos, que eram os doces élos ligando o seu alvedrio á desdita.