As creanças! Elle também fôra pequenito, descuidoso e travesso infante, nas amplas veigas lombardas, rescendentes a rosmaninho. Creara-o a inexgottavel ternura da velha mãe, e tinha sido ao som dos rudes osculos bonachões do pae que elle, apaparicado á porfia, encetara a solettração do singelo alphabeto das caricias familiares. Em casa, no antigo e pobre lar, tão arejado no verão e tão cheio de tepidos brazeiros pelo inverno, quando o norte inclemente bramia rispido nos olivaes e carvalheiras, só recebera edificantes exemplos de tolerancia mutua entre esposos amantes, de respeito calmo, de intensissima affeição. E na dupla contemplação do carinho de seus progenitores e da forte paixão com que o gado amava na pradaria, manhã cedo, ao abalar da arribana, iniciara Silverio, desde joven, o seu grande sonho de um lar todo meiguices, em férvida ventura conjugal. O sonho fôra deveras fugaz. Em pesadelo tornara-se depressa, n'estes ardentes paizes americanos, onde tudo parece crescer, desenvolver-se e passar vertiginosamente. Aquelles saudosos tempos estavam longe, formavam um grupo separado, distincto, na vasta collecção de suas recordações de outróra. Presentemente, nada restava da tranquillidade em que se formara a sua adolescencia, na Europa, nem dos esperançosos, dulcissimos sobresaltos que chegavam a tirar-lhe o somno, retendo-o até alta noite no sombrio tombadilho do vapor, quando fizera a travessia do Atlantico. Tudo fugira, na definitiva liquidação da sua felicidade.

Esta dolorosa introversão foi interrompida por um relinchar de cavallo. Olhou Silverio á direita, como voltando de um sonho. Tinham-se afastado os varredores, andava ainda no ar, peneirada na luz dos focos electricos, a poeira levantada pelas compridas vassoiras. Sempre aberto, o Universal manchava de claro a ramaria das mangueiras com a projecção das salas illuminadas. Em frente á porta, o cocheiro falava manso aos animaes impacientados. E o creado do Riche, desperto pelo relincho, obtivera do patrão a ventura de um gesto, ordem muda para fechar.

Entrou Silverio a acompanhar-lhe com a vista os movimentos, as idas e vindas, mesas levadas aos pares, cadeiras conduzidas a duas e duas em cada mão. Feliz homem, esse creado, pensava, se não tinha a inenarravel desdita de possuir um inferno em vez de lar. Ia dormir socegado, tendo trabalhado materialmente,—reparadoramente. A subitas, atravessou-se-lhe uma idéa no cerebro. Erguendo-se n'um esforço, bateu forte com os pés no lagedo, para os desentorpecer, e chamou o servente:

—Deixe essa mesa, disse, traga um cognac.

E sentou-se, com esta sentença espipada de sua ironia dolorida:

—O alcool é a mortalha da dôr.

INDICE

PAG.
Dedicatoria
Uma homenagem[I]
Represalias[13]
Um exgottado[35]
Conto do natal[49]
A neta da cabocla de Ourém[57]
O banho da tapuia[83]
Complicações psychologicas[95]
Um caso da cabanada[111]
Um como tantos[127]