Desobrigamo'-nos hoje do compromisso ha dias assumido, publicando a impressão que nos deixou a leitura do novo livro de Marques de Carvalho, Secretario da Legação brazileira era Buenos-Aires.
O volume Entre as Nymphéas contém onze trabalhos, seis dos quaes incluidos na 1.ª parte, sob a denominação geral—Subjectivismo, ficando os outros cinco subordinados ao titulo Objectivismo. Os primeiros contêm ou descrevem impressões intimas, subjectivas, conforme o proprio titulo indica, falando n'elles a alma «na livre expansão da sua illimitada sinceridade e de todas as forças affectivas que possue». São dedicados pelo auctor a sua esposa, «o amparo dos seus desanimos, o jubilo dos seus dias prazenteiros».
A nota dominante do livro é toda de tristeza e de melancolia. Através de suas paginas percebe-se a saudade, a dôr, o desespero, o horror a tudo quanto não é puro, a tudo aquillo que resulta da falsidade, da mentira, do convencional. Collocado em meio das florestas virgens do Amazonas, vivendo a vida simples dos habitantes d'aquellas paragens encantadoras, que outra impressão poderia beber o auctor em tão suggestiva situação, senão a impressão do bom, do justo, do sentimental?
D'ahi a naturalidade com que o livro foi escripto, sem grandes arreganhos de fórma, embora n'um ou n'outro periodo a gente fique a suppôr que Marques de Carvalho pende para o falso nephelibatismo. Indubitavelmente a naturalidade é uma das primeiras qualidades do escriptor, sendo que os livros que mais successo causam, são justamente aquelles em que o estylo, sempre correcto, sempre bello, não ultrapassa as raias do espontaneo, do natural, para caír no ridiculo das adjectivações estrambolicas, retumbantes e malsonantes.
Lê-se com prazer os onze contos concebidos «entre as nymphéas, na região dos nenuphares e da Victoria Régia». Destacamos, porém, da primeira parte, por nos ter melhor impressionado, a fantasia intitulada O cemiterio da floresta, em que o auctor faz bonitas considerações sobre a hypocrisia das grandes cidades dos mortos e sobre a poesia de uma sepultura entregue á guarda das mattas virgens e ao eterno choro das aguas que deslisam mansamente junto á orla da floresta.
Da segunda parte, onde apparece, com as Yaras paraenses, uma ponta de bom humor, pedimos permissão para salientar ainda dois trabalhos: Mater dolorosa e A filha do Pagê, conto indigena com que o auctor fecha o seu livro.
Entre as Nymphéas, embora impresso em Buenos-Aires—o trabalho typographico é admiravel—não está á venda n'aquella capital.
Os jornaes platinos têm tecido muito merecidos elogios ao nosso compatriota, com a apreciação do seu livro. La Patria Italiana, principalmente, diz ter-lhe causado a mais agradavel das impressões a leitura dos contos de Marques de Carvalho, affirmando que Entre as Nymphéas vem augmentar os louros colhidos pela actual geração litteraria do Brazil.
Felicitamos cordialmente o nosso compatriota e collega, cujo talento de escriptor já se tem manifestado nas suas diversas faces com a publicação de tres opusculos e de tres outros volumes: Hortencia, O livro de Judith e Contos Paraenses—todos bem recebidos no paiz e no estrangeiro.
De Valentim Magalhães, em folhetim d'A Noticia.
Entre as Nymphéas é o lindo titulo de um livro lindo—por fóra e por dentro.
É seu auctor o sr. dr. J. Marques de Carvalho, nosso ministro em Buenos-Aires. É um livrinho do feitio e do gosto d'esses da Collection Papyrus, impresso n'aquella cidade e editado por Arnoldo Moen.
Contém onze narrativas divididas e grupadas em duas partes, que o auctor intitulou Subjectivismo e Objectivismo. São contos curtos, muito intimos e suavissimos os primeiros; pittorescos, rapidos, flagrantes os segundos,—todos escriptos com elegancia e colorido.
Da primeira parte citarei, como melhores, O isolamento, O naufragio do Purús e O cemiterio da floresta, e da segunda Mater dolorosa e A filha do pagé. O dr. Marques de Carvalho, que já tem atraz de si varios livros, é um fantasista delicado e sentimental, e apaixonado pela sua terra, o que lhe dobra o encanto e o valor.
Entre as Nymphéas é um mimo: recommendo-o a quem se sinta embaraçado na escolha de um presente para uma menina ou senhora.
De Bellarmino Carneiro, n'O Paiz:
A imprensa argentina não tem regateado elogios ao precioso e elegante volume com que Marques de Carvalho acaba de fazer a sua reapparicão nas lettras patrias.
E Marques de Carvalho bem o merece, pois os seus trabalhos são obra de artista apaixonado e de homem de coração, como elle mesmo o confessa.
Espirito educado nas pugnas litterarias, adestrado luctador da imprensa, temperamento rijo e masculo, como em regra o dos filhos da região septentrional, Marques de Carvalho, ao deixar o posto de redactor d'A Provincia do Pará, a brilhante folha do norte, onde muito cedo ainda começara a trabalhar ao lado do dr. Assis, de Antonio Lemos, de Jovino Ayres e de muitos outros jornalistas distinctos, trazia um nome laureado. Hortencia, Livro de Judith, Contos Paraenses e alguns opusculos em que firmou a sua ardente fé republicana, davam-lhe foros de escriptor consagrado pelos applausos publicos.
Secretario do governo republicano do Pará e mais tarde diplomata, o auctor de Entre as Nymphéas, apezar das responsabilidades e dos labores da carreira politica, não esqueceu o culto ás lettras, nem abandonou os seus antigos idéaes.
Começamos estas linhas dizendo que a imprensa argentina colmara de elogios esse livro, cuja edição é um primor de factura typographica, e referimo'-nos a isto para mencionar de preferencia, entre tantas noticias laudatorias dos jornaes portenhos, como Patria Italiana, El Diario e muitos mais que vimos, o bellissimo artigo de Rubén Dario, o elegante e fino estylista, no periodico illustrado Buenos-Aires.
Rubén Dario é um escriptor venezuelano e critico erudito, que illustra com seus trabalhos litterarios varias folhas da capital argentina, especialmente La Nación, onde temos lido ultimamente o seu bellissimo estudo sobre o admiravel livro de Menéndez Pelayo, Antologia de poetas americanos.
Tratando do livro do nosso compatriota Marques de Carvalho, diz Ruben Dário[1]:
«Pouco conhecida é entre nós outros a litteratura brazileira contemporanea, aliás tão opulenta e brilhante, que quasi poderia considerar-se a primeira da America latina. Desde os velhos, os veteranos das lettras, que escrevem na Revista Brazileira, até essa ardente e amestrada geração que se manifesta em publicações tão habilmente sustentadas como A Semana, a producção mental do Brazil é a muitas respeitos digna de attenção, e d'ella, mais que de nenhuma outra dos paizes latino-americanos, se tem occupado por vezes a critica européa.
Quem conhece entre nós—para citar só um nome—esse critico de tão solida e profusa erudição, tão moderna variedade e bella galhardia, que se chama Araripe Junior?»
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E accrescenta depois:
«Ao percorrer as paginas d'este livro, vê-se que quem o tratou é escriptor que não desdenha o amor da arte da palavra. Se não ha ali o labor de um artista, se não chega até aos virtuosismos de fórma de alguns dos seus jovens patricios—a verdade é que elle se proclama singelamente «naturalista na expressão»—tem uma espontaneidade e um dizer amavel que impressionam mui favoravelmente.
Narra sem ambages; dá uma bella impressão da natureza tropical nas suas descripções selvagens e fluviaes.
No principio conta os suaves deleites do isolamento; Zimmermann ficaria muito satisfeito com elle. Depois, um bando de gaivotas leva-o a exhalar suspiros de vaga melancolia. Recordando o pavoroso naufragio do Purús, no grande rio, catastrophe em que pereceu a mãe de sua mãe, a manifestação do sentimento expande-se em commoventes e intimos periodos.
As expansões familiares continuam em amorosos trechos dedicados á sua filhinha. No Cemiterio da floresta, a phrase se avigora e o cuidado do estylo substitue os anteriores desafôgos pessoaes, que se renovam n'uma pagina profundamente sentida, na qual rememora a morte de sua mãe. Ahi conclue a primeira parte, que elle denominou Subjectivismo.
Na segunda, Objectivismo, encontram-se elegantes, delicadas, graciosas coisas. A pesca de Deodato é um conto repleto do bom-humor, que alegra o fantastico da narração; etc.
Mater dolorosa é um triste episodio de dôr materna; Yaras paraenses, uma encantadora humorada; Uma historia de amor, uma série de cartas de um Marcel Prévost, agradabilissimas, e A filha do Pagé, uma narrativa muito humana e muito bonita.
O livro lê-se rapidamente, gostosamente. Eu felicito o seu auctor, que me proporcionou uma feliz meia-noite até o amanhecer».
Taes são os conceitos expressos pelo illustre critico em artigo especial do Buenos-Aires, illustrado com um excellente retrato de Marques de Carvalho.
O nosso joven compatriota deve sentir-se bem compensado dos seus esforços, vendo-os prestigiados por auctoridade tão eminente nas lettras americanas, e nós não dissimularemos o jubilo que nos enche a alma cada vez que o nome de um brazileiro levanta longe da Patria applausos e acclamações tão raramente e tão avaramente prodigalizados em geral.
[1] Rubén Dario é um dos mais competentes criticos litterarios da actualidade e o mais vigoroso estylista em idioma espanhol na America do Sul.
De Arthur Azevedo, na secção «Palestra», d'O Paiz: