Li de uma assentada Entre as Nymphéas, o interessante livro que o nosso distincto compatriota J. Marques de Carvalho publicou em Buenos-Aires, onde exerce o logar de 1.º Secretario da Legação brazileira.

O volume divide-se em duas partes—Subjectivismo e Objectivismo. A primeira consta de paginas intimas, escriptas em estylo agradavel, mas um tanto rebuscado; na segunda, mais curiosa, mais simples e mais variada, encontram-se quatro bellos contos que transportam o leitor ás magestosas margens do Amazonas e Uma historia de amor, fantasia psychologica, condimentada à la mode de Paris.

Essa espirituosa composição contém sete cartas, escriptas por uma mulher durante mez e meio, que são o prologo, a acção e o desenlace de uma aventura de amor. O livro de Marques de Carvalho, que sabe manejar a penna perfeitamente; contém paginas verdadeiramente encantadoras. A filha do Pagé o conto com que termina o livro, é uma chave de ouro.

Accrescentarei que o volume, um primor de impressão, imitando as mimosas edições Guillaume, de Paris, faz honra ao editor Arnoldo Moen e á typographia La Vasconia, de Buenos-Aires.

O general dom Bartholomeu Mitre, que foi commandante das forças alliadas contra o Paraguay e presidente da Republica Argentina,—sendo além de tudo um dos mais eruditos e festejados litteratos contemporaneos, dirigiu a Marques de Carvalho as seguintes linhas, ao receber um exemplar de Entre as Nymphéas.

Bartholomeu Mitre saúda attenciosamente ao ex.mo sr. J. Marques de Carvalho Encarregado de Negocios do Brazil na Argentina e agradece o precioso livro que se serviu offerecer-lhe, o qual conservará como uma lembrança na sua Bibliotheca Americana, com a honrosa dedicatoria autographa do auctor, a quem deseja todas as felicidades n'este paiz.

O sr. dom Mariano Pelliza, diplomata e historiador argentino, tambem enviou estas palavras ao auctor:

Mariano A. Pelliza, sub-secretario de Relações Exteriores, saúda ao seu amigo Marques de Carvalho e compraz-se em enviar-lhe os seus agradecimentos pela joia litteraria (por esta vez,—joia—não é metaphora) com que teve a gentileza de o obsequiar.

Herculano Marques Inglez de Souza, o illustre jurisconsulto e eminente litterato brazileiro, endereçou a Marques de Carvalho a seguinte carta:

Cumpro um grato dever, agradecendo cordialmente a V. a dupla distincção que se dignou fazer-me, offerecendo-me um exemplar do sou bello livrinho—Entre as Nymphéas e dedicando-me as sentidas e delicadas paginas que escreveu a proposito da tragedia do vapor Purús.

Já conhecia de V. alguns trabalhos e, entre elles, a Hortencia, romance em que revela grandes qualidades de observação e muito amor á verdade na Arte. O seu novo livro mostra que áquelles predicados sabe V. alliar muito sentimento verdadeiro e um estylo colorido e sóbrio.

A conceituada Revista Brazileira, do Rio, estampou o seguinte juizo critico:

Como a canôa que deslisa por entre a vegetação aquatica que deu o titulo a este elegante livro de contos, vae a alma de quem o lê levada de narrativa em narrativa, sem se emmaranhar nas enrediças do estylo caprichosamente entrelaçadas.

Com effeito, reproduzem-se n'este livro delicado as infinitas gradações de côres que o sol dos tropicos, enfiando o pincel de raios pelo prisma das cataractas, fixou nas pennas das aves e nas folhas dos nenuphares. E com a vehemencia com que pelas regiões do Amazonas brotam as açucenas do seio das aguas, o sentimento do bello enraizado profundamente na alma do escriptor desabrochou em commovidas phrases á flôr do pranto que lhe fez verter a saudade da filhinha ausente ou da mãe que elle viu finar-se.

Brinde a minha filha e Um anniversario são paginas escriptas com o proprio sangue e incluidas na 1.ª parte—Subjectivismo, que o auctor offerece a sua esposa. O subjectivismo terá sempre esta superioridade incontestavel: que na ignorancia em que depois de tantos seculos de philosophias ainda se encontra o homem com respeito á lei do universo, somente a que em si sente póde ter uma tal ou qual consciencia; d'onde resulta que, ainda quando copía o mundo exterior, é o seu proprio sentimento que empresta ás coisas. Por isso o homem persiste em affirmar que os montes são tristes, que choram os mares, que riem as searas, que folgam as aves, e não quer ver que nem os montes são tristes, nem choram os mares, nem riem as searas, nem folgam as aves e que só elle é triste, chora, ri ou folga, porque só elle possue em toda a natureza a capacidade das alegrias supremas comparada com o dom das supremas angustias.

Da 2.ª parte—Objectivismo, commoveram-nos principalmente as duas narrativas Mater dolorosa e A filha do Pagé, a historia entristecedora de uma mãe que vê o filho engulido pelo gigante rio do Norte e a de um velho indio que chora a filha deshonrada. Estes dois contos confirmam-nos na crença de que é, quando menos, inutil para a arte a distincção entre subjectivismo e objectivismo. Se o auctor logra transmittir a quem o lê a emoção espontanea ou reflexa de que se acha possuido (e é o caso do sr. Marques de Carvalho), a obra é verdadeira; se não logra, a obra é falsa, porque, em todo caso, é sempre o objectivismo do leitor que julga em ultima instancia.—S. R.