O rapazito conservou-se calado, mas parecia prestar attenção.

—Ha de ser coruja, explicou ao cabo d'um instante.

Mas outro grito ouviu-se então, d'esta feita mais accentuado. Não havia duvida, alguém pedia soccorro.

—É obra! exclamou Antonio.

—Parêsque sim, disse o rapaz.

E, levantando-se, correram para fóra.

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* *

Ahi, a chuva caía violentamente. Negro o ceu, negro o mar,—tornavam-se a cada instante d'uma lividez violacea, com o lampejo dos relampagos. Ondas debatiam-se em tropel, vinham quebrar-se na praia com extranha furia. Mas os mais pavorosos estrondos eram os da insondavel floresta virgem, sinistro consorcio do cair da agua nas ramarias, do soluço dos galhos agitados e dos gritos indefinidos de toda a sorte de animaes surprehendidos pela tormenta, desalojados dos poisos, atacados nas tocas esconsas.

No primeiro momento, nada viram os dois caboclos; cegava-os deslumbradoramente o palpitar dos relampagos. Comtudo, seus olhos expertos breve triumpharam das trevas ululantes. E ao cabo de curta concentração, voltados para o largo, enxergaram a pouca distancia da linha da agua um vulto negro, que ora subia a admiraveis alturas, ora desabava rapido ao seio de profundos valles movediços.

Novo grito, indistincto a quem não tivesse a pratica da vida maritima, scindiu o espaço, pedindo soccorro. Não havia hesitar. Antonio, impossibilitado de cruzar a vista com o filho, tomou-lhe um braço, apertou-o nervosamente. Comprehendeu-o o rapaz. Era aquella a hora da famosa represalia!