Atiraram-se os dois ao mar, despidas n'um momento as simples calças de dril azul, sem uma indecisão. Eil-os que nadam, com extraordinarios esforços, em direcção ao negro vulto oscillante além, á flôr das ondas indomaveis. Guia-os uma alegria enorme,—o enthusiasmo entôa risonhos hymnos ao fundo de suas almas singelas.

Para Antonio, esse é o momento da inebriante desforra. Vae vingar-se do oceano! Vae vingar-se do oceano!

—Coragem, curumim! grita ao filho, sem ser ouvido.

E nadam os dois, nadam corajosos, avançando com difficuldade, mas, apezar de tudo, avançando sempre.

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Chegaram emfim ao ponto desejado. Era uma pequena canôa, fundeada sem duvida antes da tormenta.

Pae e filho saltaram para dentro da embarcação, quasi inteiramente alagada. Á pôpa, sobre o paneiro já tomado pela agua, estava um homem extendido.

Hirto, esperou um relampago e indicou por acenos—pois falar seria inutil esforço em meio áquelle barulho macabro dos elementos—que o mastro, partido pelo raio, caíra sobre elle, quebrando-lhe uma perna. E á luz de outro relampago, demonstrou a desconfiança de que a embarcação estivesse prestes a sossobrar. Com effeito, a agua subia sempre.

Já Antonio tomara-o nos braços, colhendo-o de encontro ao coração. Firmou-o mais á esquerda, gritou-lhe ao ouvido que não fizesse o menor movimento e, galgando a borda, atirou-se ao mar, seguido do rapaz.

Eil-os agora que nadam jubilosa, difficultosamente para a costa. É ainda maior, se possivel, a alegria dos caboclos. Vingaram-se do inimigo, furtando-lhe uma prêza... Que ventura!