Em cima do leito, abandonada, a grinalda de flôres de larangeira repousa meio escondida sob um lenço de fina baptista com um monogramma bordado.

Ha quinze minutos que a noiva penetrou no quarto, muito pállida e trémula, seguida pela madrinha, e atirou sobre aquella cadeira preguiçosa o elegante espartilho e o corpinho de labyrintho....

Ha quinze minutos a joven Paula, toda transida ante os mysterios que se lhe antolhavam na vida que ia começar em breve, deixou-se escorregar pelos finos lençóes e descançou a bella cabeça de paraense morena, em cima do travesseiro macio como a flôr do algodoeiro....

E ha dez minutos apenas que o seu noivo, o seu querido Alfredo, entrou a passos leves, amoroso, cheio de grandes anceios, com os labios contrahidos n'um leve rictus de satisfação, de ventura.

Dez minutos antes, elle descerrara as cortinas que se fechavam n'uma pudicicia, e murmurara baixinho, todo emocionado:

—Permittes?....[{71}]

E agora, emquanto elles dormitam, amorosamente enlaçados, sonhando felicidades paradisíacas, um perfume suave de flôres volita pela atmosphera da peça, exhalando-se dos grandes vasos de porcellana, onde as rosas multicores desabrocham opulentas, reflectindo-se nos espelhos e como espiando curiosas para o leito de alvas cortinas discretamente cerradas.

[II]

O casamento realisado n'aquelle dia fôra o epilogo de um longo namoro de seis annos, muito abundante em peripecias interessantes, como indisposições subitas, brigas e malquerenças de alguns mezes por causa de nonada, e, depois, de repente, pela influencia de não sei que espirito benefico, pazes feitas com abundantes expansões apaixonadas, reconciliações ternas e carinhosas, que os prendiam temporariamente n'um enlevo.

O pae de Paula era um velho capitalista retirado dos negocios, brazileiro obeso e rubicundo a destillar suor e essa satisfação[{72}] do homem rico que vive contentíssimo da sorte.