Ó bella, ó seductora Malvina, sae do teu refugio nocturno, desce do rochedo sinistro onde o vento-norte ruge em torno de ti. Acerca-te de mim.
Inflammados sulcos os phantasmas dos mortos traçam sobre as nossas torrentes. Ouço-os passar no meio dos turbilhões e suas vozes fanhosas são os unicos sons a perturbar o magestoso socego das trévas.
Ó tu, cuja mão branca e delicada desferia melancholicos gemidos nas harpas de[{85}] Lutha, tenta ainda consolar-me com teus hymnos poeticos e dolentes. Desperta essas cordas adormecidas, canta, ó Malvina, e reaviva o meu genio, cuja chamma foi sopitada pelos annos implacaveis.
Vem a mim, ó Malvina gentil, na obscuridade d'esta longa noite que entristece-me. Porque privaste-me da meiguice de teus cantos! Quando o regato cae na colina e róla, depois do furacão, sob a luz radiante do sol, o caçador escuta-lhe com prazer os suaves murmurios, sacudindo a humida cabelleira.
Assim a tua sonorosa voz, Malvina, encanta o amigo dos finados heróes. Infla-se meu peito; o meu coração palpita. Delinêa-se a meus olhos o passado. Vem, ó Malvina, não divagues mais no meio das ténebras![{86}]
[III
O parocho da aldeia]
[Ao Padre Dr. Leorne Menescal]
É a providencia da pobre aldeia aquelle joven sacerdote de tez morena e olhar carinhoso como um conselho de Jesus.
A sua parca mesa está sempre ás ordens dos mendigos, a sua porta aberta sempre aos viajantes, a sua bôcca incessantemente murmura consolações ás pessoas que soffrem.
Muitas vezes, alta noite, vão chamal-o para ministrar os socorros da religião a algum enfermo, em qualquer das aldeias[{87}] que formam a serrana freguezia. Então, levanta-se ás pressas, monta a cavallo e lá vae montanhas fóra, a galope, ladeando tenebrosos precipícios, sob a chuva, tiritando de frio, impassivel como um heróe e contente comsigo mesmo, sentindo-se alegre por ir cumprir um dos mistéres que lhe impõe a sua profissão, tão bem comprehendida por sua bella alma!