Mas ergueram-se de subito, n'um enleio: apparecera á porta que dava para o corredor o moleque Euzebio, com o bule de chá....
[II]
Depois do chá, Roberto accendeu um charuto, foi buscar um livro e, accommodando-se[{130}] n'uma grande voltaire, poz-se a ler. Ficou a Candida defronte d'elle, a miral-o.
Vinha do jardim uma brisa cheia de perfumes, sacudindo as luzes dos dois bicos de gaz encerrados em globos de crystal finamente lavrado. Com os cotovellos sobre a mesa, o rosto de mento saliente e narinas afflantes descançando nas palmas das mãos, Candida continuava a olhar para o marido com uma expressão extranha, suave, repassada de ternuras dulcíssimas.
Parecia lançada á contemplação da propria felicidade. Era justamente aquillo que, annos antes, phantasiára a sua sonhadora imaginação de burguezinha estragada pelos mimos de seus paes extremosos e pacóvios: viver honesta ao pé de um marido bonito e de bom coração; estar sempre junto d'elle, para o consolar em todos os desgostos, rir com elle nas horas de alegria, ser-lhe sempre de uma fidelidade irreprehensivel e, sobretudo, contemplal-o a todo instante, silenciosa, longamente, envolvel-o nas sentimentaes suavidades do seu enlanguescido olhar de creoula amoravel! Nunca sentira-se tão feliz como depois de seu casamento com o Roberto, havia quasi dez mezes. Nem uma só contrariedade tivera após aquella noite commovente, em que recebeu o primeiro beijo do noivo no silencio de uma discreta alcôva toda cheia de flôres, rendas, fitas e perfumes! E com[{131}] que alegria, com que assomos de risonha infantilidade não ficou, na manhã immediata, quando leu no Diario de Noticias as linhas seguintes, que decorou á força de as repetir baixinho?—"Uniram-se hontem á noite em matrimonio, na egreja de Nazareth, o Sr. Roberto da Silva Pereira, honrado commerciante da nossa praça, e a Exma. Sra. D. Candida Annunciada Seixas, filha do nosso amigo sr. Pandolpho Seixas, proprietario abastadíssimo. Foram padrinhos os srs. Silvino Cunha e Anthero de Mendonça e suas exmas. consortes. Aos jovens conjuges desejamos o mais ridente porvir enaltecido das felicidades a que têm jus por seus dotes distinctissimos." Ficou a nadar em jubilo, toda desvanecida por ver o nome nos jornaes, commovidíssima pela lembrança de que, áquella hora, a cidade inteira estava sabedora da realisação de seus intimos desejos de moça apaixonada!.... D'ahi em deante começaram a viver como dois anjinhos, como ella queria. Roberto era sempre de uma delicadeza affectuosa e séria para com a sua Candinha, que tambem, valha a verdade, contribuia, segundo seu poder, para tornar-lhe suave e alegre a vida. Ella achava impossivel que duas pessoas que se amaram quando noivas brigassem depois de casadas por dá cá aquella palha... Entretanto, assim acontecia ás vezes. Ahi estava, mesmo no Pará, a d. Clotilde que, no dizer das más linguas, era uma jararaca[{132}] para o marido. O Pedro de Andrade, esposo da d. Estephania, era outro: passava a vida pelas casas de jogo, embriagava-se e, ao chegar ao domicilio, esbordoava a mulher que era mesmo uma dôr de coração! Mas com ella assim não succedia, graças a Deus! O Roberto era pontual como um cobrador á hora de recolher ao lar: ás 5 da tarde mandava fechar o armazem, tomava o bond e vinha logo para junto d'ella, de onde não se arredava senão ao outro dia pela manhã, afim de ir novamente para o trabalho. Havia de continuar sempre assim tal norma de vida: ella conhecia de mais o genio do marido para receiar qualquer mudança futura. Agora, principalmente, ia o Roberto ficar preso pelos beiços, com a importante noticia que ella tinha para lhe dar. Era verdade! fazia-se necessario contar-lhe tudo... Porém como? A vergonha apertava-lhe a garganta assim que ella abria a bocca para falar... Mas hoje diria, estava resolvida! Quando? agora?—Agora não; deixal-o com a leitura, que está tão entretido.... Mais logo, quando se fossem deitar. Oh! como ficaria satisfeito o Roberto! Que prazer para elle!... para elle, que era tão lindo, tão bom, tão amado!....
Tudo isto pensava ella, continuando a fitar o esposo n'um enlevo apaixonado.[{133}]
[III]
De tempos a tempos, desviando a vista do livro para sacudir a cinza do charuto, Roberto fitava a mulher, sorrindo bondosamente. Surprehendida, a Candida pendia para o peito a formosa cabeça, disfarçava fingindo ler n'um livro que estava sobre a mesa. Em seguida, quando calculava que o marido continuava na leitura, tornava a pregar no rosto d'elle o seu ardente olhar, como se desejasse cobril-o com toda a vehemencia da paixão.
Ouvindo soarem no sino de Sant'Anna as 10 horas, Roberto fechou o livro.
—Vamos dormir?—propoz.