Candida estremeceu e levantou-se.

O moleque veiu fechar as portas e janellas e apagar o gaz.

No entanto, haviam os dois penetrado na pequena alcôva. Em cima do velador, uma véla côr de rosa ardia n'um castiçalzinho de porcellana de Sévres com pinturas allegoricas de Amores alados e Chiméras volitantes. No centro, uma causeuse de setim azul estava cheia de laços, corpinhos de renda, brochuras esparralhadas, n'um abandono adoravelmente dissymétrico. Vidros de perfumarias com rôlhas de crystal[{134}] reluziam em cima do toucador de jacarandá, lançavam scintillações cambiantes ao espelho inteiriço do grande guarda-roupa que havia no meio de uma das paredes lateraes.

Ao fundo erguia-se a cama,—pudicamente occulta entre as rugas de um cortinado de labyrintho finíssimo, suspenso do tecto por uma passadeira doirada.

Levantava-se d'aquella cama um quê de evaporação de felicidade inenarravel, que penetrava no espirito dos dois esposos pelos sentidos do olfacto e da vista. Parecia-lhes acharem-se deante do tabernaculo de seu amor, do altar de sua existencia feliz e encantadora. Para Candida, sobretudo, ella tinha uma importancia transcendental: evocava-lhe uma recordação agri-dôce, que fazia-a sorrir bondosamente depois de nove mezes de agradabilíssima co-habitação conjugal....

Quando iam deitar-se, Candida enlaçou a cabeça do marido com os braços descobertos,—mal vestida, apenas velada por uma curta camisinha de cambraia enfeitada de rendas do Ceará.

Roberto beijou-lhe as carnes, aspirando-lhes os mornos effluvios,—essas queridas exhalações de mulher amada,—n'um enlanguescimento concupiscente.[{135}]

—Olha, murmurou ella conservando-se na mesma posição, beijando-o na testa.—Quero dar-te uma noticia muito bôa....

—Qual é?—perguntou Roberto estreitando-a nos braços.