[Ao sr. Ulderico Souza]
Desculpe, mas descreio, doutor, da sinceridade das suas palavras!
E a bella Arcelina tapou os rubros labios, entreabertos em zombeteiro sorriso, com as rendas finíssimas do seu leque amarello-canario, de varetas de madreperola.
—E porque, não me dirá? insistiu o doutor Machado, debruçado sobre a cadeira da interlocutora, a settear-lhe os seios semi-visiveis com um ardente olhar vibrado[{138}] atravez o crystal do monóculo petulante.
—Porque—?, respondeu ella, com uma curta gargalhada de chasco, a fital-o bem na menina dos olhos, falando-lhe por cima do hombro esquerdo, polvilhado de rescendente velutina; porque.... a vida é uma boa mestra, doutor, e eu tenho recebido d'ella bem duros, bem crueis exemplos!
—Apezar de ser tão nova assim?
—A vida não escolhe discipulos entre aquelles que apresentam a cabeça encanecida. Bem ao contrario, parece que aos moços dá, por vezes, preferencia, como compensando-os de não terem o discernimento preciso para bem conhecer e evitar os revezes da sorte.
—Mas—é maravilhoso tudo quanto estão a dizer-me os seus divinos labios com a musica angelical da sua voz, minha adoravel senhora! Se já não sentisse por sua pessôa—e pelo seu espirito—este indomavel affecto de que falei-lhe ha pouco, penso que deveria experimental-o agora—e bem profundamente!—depois de ouvir-lhe tão razoaveis e inesperados conceitos.
—Devéras?
—Por certo.