—Não... Fui... Agora estou novamente solteiro: sou viuvo.
—Ah!
—É verdade. Sou viuvo e tenho-me dado[{13}] muito bem n'este novo estado de quem vive sem as preoccupações do homem casado, que tem uma familia a sustentar. Bem tolo é quem se casa...
Calou-se, a mirar-se outra vez nos meus olhos.
Um pequeno sorriso enigmatico frisava-lhe o labio superior, traçando nas duas faces profundas rugas obliquas que, nascendo das azas do nariz, partiam a perder-se nos longos fios grisalhos da parte inferior das suissas.
Eu não comprehendia bem o que diziam aquellas palavras, assim sublinhadas por similhante sorriso.
Elle pareceu-me haver adivinhado a minha duvida, porque disse, apertando-me as costas da mão direita, como para chamar para si toda a minha attenção:
—Está curioso, não? Quer talvez saber quem seja esta velha ave de arribação que vive no seu paiz e que tanta alegria traz sempre no coração, no rosto,—nos labios e no olhar? É uma historia muito longa a minha, meu caro senhor. Sou muito franco: deseja ouvil-a? Não perderá nada com isso; pelo contrario, creio aproveitará alguma coisa com a moral que tirar das minhas palavras, depois de me dar toda a razão nos actos que pratiquei. Logo que me ouvir, o sr. verificará que é muito certo o rifão: Tristezas não pagam dividas, e adquirirá a certeza de que, n'este mundo, o[{14}] melhor meio de se gosar saúde e viver tranquillo, é ter o coração calmo como a bonança e grande como a barriga do dezembargador Delfino. Ora vire p'ra cá as oiças e preste attenção.
Sentei-me. Elle fez o mesmo e começou, sorrindo sempre:
—"Quando cheguei ao Brazil, trazia algumas dezenas de contos de réis, herança de meu pae, morto quando eu era menino. Estabeleci-me, achando logo um socio que possuia capital equivalente ao meu. Ganhamos rios de dinheiro, que o meu socio conscienciosamente gastava, esbanjava com uma hispanhola réles e velhaca de um hotel da cidade.