"Um bello dia fallimos,—por causa dessas extraordinarias despezas capazes de desfalcarem os replectos cofres de um Crésus. Cuida que apaixonei-me por isso, que fiquei triste, abatido, doente, desanimado, sem vontade para continuar no trabalho honrado? Qual, meu amigo! O meu espirito é refractario a tristezas,—o meu coração grande de mais para fazer-se pequenino e mirrado por tão pouca cousa. Um ou dois contos de réis que pude ganhar em certo negocio, após o naufragio a que fôra conduzido pela doidice de meu socio, empreguei-os em comprar algumas joias de ouro falso, em mercadorias de contrabando, e, com um volumoso carregamento barato,[{15}] segui para o rio Madeira, afim de explorar em meu unico proveito a ingênua simplicidade dos seringueiros.

"Não me falharam os calculos: mezes depois voltei ao Pará, e adquiri maior carregamento, que fui de novo impingir ás remotas regiões do alto Madeira, onde os jacarés e onças respeitaram-me sempre a delicada posição de inoffensivo estrangeiro, que carece de protecção, que não deve ser offendido nunca em um paiz amigo!"

Calou-se. Em sua larga bôcca de expressão franca e descuidosa estava o eterno sorriso zombeteiro, aquelle sorriso sympathico, que me attraía para esse homem com toda a enorme força de um robusto affecto nascente.

Accendeu um charuto e continuou:

—"Para encurtar prolixidades: seis annos depois de nossa fallencia, eu regressava definitivamente ao Pará, trazendo uma solida fortuna amoedada em bons contos de réis palpaveis, em notas do Thesouro, no fundo da mala. Tratei logo de cumprir as imposições de um dever: paguei a todos os crédores da massa fallida, sem excepção de um só! Uma d'essas dividas da firma era uma anquinha,—uma anquinha!—que meu socio havia comprado para a sua Venus andaluza! Fiquei ainda com bastante dinheiro, com que estabeleci-me pela segunda vez,—d'essa[{16}] feita sem socio, para não mais ser prejudicado por ninguem.

"Quiz a sorte que eu me apaixonasse por uma formosa rapariga paraense,—farta carnação morenamente excitante e grandes quadris arredondados, divinos,—filha de um subdelegado de policia. Casei-me com ella alguns mezes depois de a ver. Não tinha educação, era estupida, mas possuía a convicção da belleza nas fórmas, a imponencia da sensualidade no olhar, e eu amava-a! Que me importava o resto?

"Dois annos vivi eu nos braços de uma felicidade illimitada. Luiza, a minha captivante mulher adorada, de dia para dia ganhava um palmo em minha infinita affeição serôdia, e cada vez mais revelava-me um esplendido segredo de sua magnifica belleza de crioula! Era um delirio, uma loucura dulcíssima e purificadora, aquelle amor que eu lhe votava com toda a vibrante virilidade do meu corpo e da minha alma! A pequenina casa em que viviamos era para mim uma Capua desejada, onde a minha languidez encontrava tranquillo bem estar, nos braços da seductora Luiza. O dia seguinte, que para muitos é um enigma atterrador, apresentava-se-me franca e gostosamente como a fiel reproducção inalteravel da vespera e do dia presente. Horas suavíssimas de um amor intenso e bom, como fostes amadas pela piéguice da ingenuidade do meu espirito!"[{17}]

Calou-se ainda, com o rosto demudado em uma espiritualisação prazenteira. Mas fitou-me, e logo o tal sorriso ironico volveu a arregaçar-lhe a rubra ponta do labio grosso e varonil.

E proseguiu, após haver accendido o charuto que se apagara:

—Eu tinha inteira confiança em Luiza. Jámais a idéa de uma perfidia de sua parte me passara pelo tranquillo espirito de marido que confia. Como poderiam enganar-me aquelles olhos tão bellamente claros e brilhantes, aquella bocca de perfumosos labios que davam beijos tão doces, tão sensuaes, tão irritantes? Santa simplicidade das almas descuidosas! O meu espirito era o espelho onde se reflectia o meu coração e onde eu suppunha ver a alma de Luiza, estava realmente a minha, a minha que em breve tinha de ser tão rudemente ferida pelos factos!