"É como lhe digo. Luiza era um demonio, longe de ser um anjo, como eu a phantasiava na benevolencia do meu illimitado amor. De imaginação creadora e ardente, apaixonara-se por um gordo vaqueiro de Marajó, que viera á cidade, e um bello dia, quando, ao caír da tarde, regressei a casa para jantar, não mais a vi: a safardana roubara-me todo o dinheiro que eu tinha em casa e fugira com o sobredito cujo mencionado[{18}] vaqueiro, como vim logo a saber, por informações ministradas pela visinhança, com grande vergonha dos meus brios de homem robusto, completo, valente e, na minha valiosa opinião, não de todo incapaz para o principal fim a que visava aquella ardente mulher material e voluptuosa.

"E que pensa o senhor que eu fiz para a castigar? Que a persegui com as leis do seu paiz em punho? Que fui buscal-a ao meio dos touros de Marajó, onde, por certo, ella repousava, muito languida e sensual, nos braços do cyclopico vaqueiro? Que expuz á irrisão publica, ás chufas da plebe, a ignara patifaria de minha mulher e a irreparavel deshonra do meu nome? Nada d'isso, meu caro! Deixei-a ir, sem me incommodar! Olhe, mandei-lhe mesmo umas camisas e anagoas de que se esquecera com a precipitação da fuga! Veja até que ponto fui complacente. Veja que santa bondade a minha!

"A desgraçada morreu um anno depois, victima de béri-béri; pois bem; para mostrar a Deus que não sou de todo mau, mandei por alma de minha mulher resar, na egreja do Carmo, uma triste missa de requiem, a que assisti com respeito e piedade."

Calou-se, sem uma commoção no rosto ou na voz. Falava como se tratasse do tempo ou da côr do céu n'aquelle momento: com a maxima placidez. E logo o seu velhaco[{19}] risinho sarcastico saltou-lhe da bôcca e veiu espreitar-me de sobre o labio superior,—como se fosse um depoimento vivo da tranquillidade d'aquella alma em face de todos os extraordinarios acontecimentos que por cima d'ella haviam passado, sem conseguirem emocional-a.

O meu companheiro, o meu extranho conviva, ergueu-se e, accenando-me para que acompanhasse-o, seguiu em direcção ao povoado, cantarolando esta pandega quadra do Dia e a Noite, de Lecocq:

Minha mulher, que Deus levou,
Foi-me infiel constantemente;
Nada d'isso me acabrunhou:
Levei o caso alegremente![{20}]
[{21}]

[A convalescente]

[Ao dr. Alvares da Costa]

Estava pallida e triste, encostada levemente á grade do camarote, n'aquella noite de estréa.

Os seus olhos, negros como a sêda que o seu delicado corpo vestia, divagavam pela platéa, indecisos, sem fixarem-se em ponto algum. Parecia uma d'essas melancholicas personagens de George Sand, phantasticas e idéaes, bellas, todavia, mesmo na falsidade da sua creação,—vivificada por um mysterio e conduzida áquella sala d'espectaculo,[{22}] onde ostentavam-se as formosuras das moças da moda e as austeras sobrecasacas dos burguezes, sob a intensa luz do gaz.