Inscrevo-os n'esta folha, registro-os em tua alma, ó flôr, para offerecer-t'os como presente d'annos em penhor do largo affecto de teu pae, emquanto, separado de ti por grande distancia, levanto á sorte mil votos pela tua felicidade futura, por tua existencia, por tua saude, pela tua angelica pureza de donzella e pela tua inquebrantavel virtude de esposa.

É bem possivel que não mais exista o auctor d'estas linhas e da tua existencia quando possas lêr as palavras aqui traçadas.

Não importa! Servirão para[{56}] lembrar-te que possuiste um pae amorosíssimo, que teve para ti os pensamentos todos da sua vida e, por certo, ainda mesmo o pensamento final da hora derradeira!

Rio Madeira, abril.[{57}]

O cemiterio da floresta

O cemiterio da floresta

Hontem pela tarde o meu espirito confrangeu-se inteiro perante inesperado espectaculo, cuja reminiscencia me faz pensar ainda e arrasta-me tremula a mão, na tarefa de consignal-o no papel.

Vou referir-te, meu amor, o que viram meus olhos, e o que meu coração sentiu n'aquelle instante d'íntimas reflexões maguadas.

Cortada em rapido declive sobre a beira da agua, em meio á floresta densa, abandonada de todos, uma clareira fazia-se abrupta e essa clareira era um cemiterio, um pequeno[{60}] campo santo solitario e melancholico,—sympathico todavia,—salpicado de cruzes toscas e negras!

A bordo, alegres conversações travavam-se aqui e ali, sob o oiro refulgente do sol no estivo desabrochar das claras horas diurnas. Ninguém parecia attentar n'esse triste sitio de repouso, sobre o qual a tripudiante passarada das mattas volitava cheia de inconsciencia, garridamente estrepitosa e jovial.