Alargava-se o rio ali defronte, muito socegado, todo brunido das reflexões solares, como se recebido houvesse um grande banho de prata fundida.
E um rumorejar da folhagem, dos dois lados do cemiterio e ao fundo, fechando o horisonte do quadro, cerrando a escarpa, como que parecia entoar a langorosa monotonia d'uma surdina risonha do[{61}] prazer, sacudida em amplas vibrações de volupia.
Entretanto, o meu espirito entenebrecia-se pouco a pouco. Uma tristeza empolgou-o forte e minha alma deslisou para as mudas divagações dos sonhos acordados, das reflexões abstractas em que os olhos voltam a força objectiva para o interior e, eliminando o seu poder observador do mundo externo, nada comprehendem do que vem, porque só o cerebro trabalha dentro da materia e o seu meio de acção anniquila-se perante o vigor do espirito.
De quem aquelles despojos materiaes ali inhumados, longe dos centros de povoação, roubados ao conhecimento mundano, subtraídos á vaidade dos homens, entregues á terra com toda a simpleza das grandes devoluções pungentes, restituidos á obscuridade do nada para sempre,[{62}] para sempre furtados á ultima recordação marmorea que lhes lembrasse o nome na derradeira falsidade dos epitaphios campanudos?
Quantos heróes ignorados se não occultariam n'aquelle recinto, sob a leve camada de terra ás pressas lançada pelos vivos por cima de seus cadaveres meio decompostos?
Ali não vinham os falsos amigos ostentar o seu fingido pezar, com o recolhimento das feições e a compostura do trajo que predominam pelas cidades, onde até a inhumação é um luxo mais ou menos apurado. O marido infiel, respirando emfim livremente após a quebra do fio que prendia-lhe o alvedrio, não viria ali mais uma vez insultar com uma dôr não sentida a lamentavel memoria da doce esposa traída, nem a joven viuva leviana, já com o espirito occupado por[{63}] amorosos pensares—adulterio posthumo!—appareceria a ostentar o fingimento d'uma paixão que não possuia e que depressa esqueceu na elaboração de cartinhas piégas ao primeiro janota impudico que lhe deparou a sorte ironica.
Ali, sim, ao homem honesto e severo, á mulher virtuosa e amante, á innocente creancinha levada ao descanso perennal após breve apparição na terra, grato, gratíssimo seria inteiriçar os membros lassos e repousar alfim, descuidosos na eterna immobilidade dissolvente da ultima pacificação,—separados de toda a phantasia ephêmera e das convenções banaes da fallaciosa hypocrisia social.
Para quê ser lembrado após a morte? De que serve um marmore a reproduzir o nome d'um sêr cuja existencia o tempo consumiu,—candeia extincta, apagado fanal do[{64}] pelago da vida? Recordar o nome d'um morto, perpetual-o petreamente, é ainda uma fórma de insulto, é uma violação que põe o finado na emergencia de se lembrarem d'elle os maus, os pérfidos, aquelles que não o comprehenderam em vida e que mais uma vez negar-se-ão a fazer-lhe a justiça de que tão sedento estava o seu espirito.
Estaes bem ahi, desconhecidos heróes do labutar quotidiano, ó martyres das privações no meio d'essa esplendida orgia de verduras amazonicas! Tão bem vos acho, que até sinto inveja ao ver-vos no pequenino cemiterio escalvado na rapida ribanceira.
A sorte restituiu-vos ao pó com a mais austera simplicidade. Voltastes á terra na modesta elaboração d'um acto naturalíssimo e a vida que fermenta entre as raizes d'essas bellas e grandes arvores[{65}] viridantes vae buscar nos vossos cadaveres aquillo que lhe podeis dar:—a cada minuto um átomo de seiva, tirado á tépida fermentação da vosa carne, outr'ora palpitante, porém banal, agora repousada, mas operadora do beneficio que a lei natural do transformismo obriga-vos a prestar-lhe.