Apraz-me sentir que o meu espirito se consolaria quando, após á extincção da minha vida, algum ente querido, depois do ultimo beijo, enterrasse-me o corpo em vossa companhia, ó eternos moradores do cemiterio da selva! Julgar-me-ia feliz, com a satisfação e o orgulho d'este ultimo capricho realisado.
Teria, como vós, o supremo requiem dos trillos dos passaros, do farfalhar das ramarias densas, do desprezo dos raros viajantes n'estas longinquas regiões do Madeira[{66}] e dos murmurosos beijos do gorgolejante listrão aquoso que incessantemente corre, ora envolto no denso velludo tenebroso da noite, ora ostenta-se brunido pelas amplas disseminações de prata fundida que o sol por cima d'elle parece lançar ás vezes, quando o ceu, sempre misericordioso, não verte sobre vós, lugubremente, paternalmente, as piedosas orvalhadas dos seus largos prantos pluviaes.
Salvè, desconhecidos martyres da familia amazonica, eternos habitadores do cemiterio da floresta!
Rio Madeira, abril.[{67}]
UM ANNIVERSARIO
UM ANNIVERSARIO
Á memoria de minhã irmã
A meu irmão.
Seis annos, hoje, que finou-se a mais santa das creaturas, a mais querida e amoravel das mães.
Perante a emotividade profundíssima do meu ser, não tem hoje poder as largas pompas magestosas d'este romper de dia sereno sobre a paizagem Assoalhada, vibrante de esplendor, fremente de[{70}] canções d'aves silvestres. Ao contrario, tudo me parece melancholico, monotono, quasi hostil, porque recebo as impressões externas atravez dos meus sentimentos e estes concentram-se nas amaríssimas dôres excitadas pela inapagavel recordação da morte de minha mãe!
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