Em torno, alguns parentes vigiavam immoveis, com a expressão contristada, transida, que temos ao esperar a morte. Á cabeceira, de pé, encostada ao espaldar do leito, minha irmãsinha chorava em silencio, enxugava as incessantes lágrymas, suffocava os soluços, para não trair-se.

Quem atrever-se-ia a mostrar que soffria, perante aquelle[{75}] resignado soffrimento que tão bem continha-se?

Meu irmão egualmente quedava-se perfilado, os olhos cravados n'esse rosto pállido, n'essa bemdita fronte eburnea que a virtude aureolava, n'esses doces labios que presentiamos frios, frigidíssimos, não obstante o ardente halito que esfrolava-os, ja osculados pela morte!...

Aquelles labios sonorosos, aquelles labios cantantes de mãe brazileira,—quem poderia mais galvanizal-os, fazel-os vibrar com o dulcíssimo affecto maternal que era o nosso ineffavel enlevo na quadra festiva da meninice descuidosa?

Onde iriamos beber os prudentes conselhos que esses puríssimos labios proferiram, deixaram cair em nossas almas como um desfiar de pérolas raras em taças de cristal?...[{76}]

Quem seria, d'ali em deante, a amiga incomparavel, a santa companheira da nossa adolescencia ardente, a meiga representante d'esse encanecido vulto,—heroico prototypo da affeição familiar, da honra, da dignidade, de todos os boníssimos sentimentos,—que foi o nosso Pae?....

Oh! desgraçados que eramos! N'aquelle impassivel expirar de tarde equatorial pomposa e abrazadora, iamos perder para sempre,—para sempre!—o nosso mais valioso dote, a vida de nossa Mãe!...

*

Seis horas e poucos minutos, Desapparecera do tecto, sempre seguido pelos olhos da moribunda, o circulo luminoso, a despedida do sol á vida periclitante. Desmaiara mais, tornara-se apenas uma tênue mancha amarella, breve[{77}] transformada em sombra quasi imperceptivel. Depois, esbatendo-se gradualmente, fôra supprimida. Desappareceu: começou a agonia na enferma.

É doloroso assistir ao estertor dos moribundos. Terriveis embates soffremos na alma. Primeiro, o egoismo natural no homem, excitado pela lembrança de ir perder um ente amado; depois, a constatação de que nunca mais poderá gosar-lhe do convivio, ouvir-lhe a fala affectuosa, oscular-lhe a fronte calma, as faces sorridentes com a immensa candura da virtude. Porém onde haverá mais requintado, mais vivo e agudo soffrer, do que na propria sensação que experimentamos da agonia do moribundo amado? Em que série de martyrios archi-excruciantes classificar esse desespero tôrvo, enlouquecedor,[{78}] vibrante, que em nós erguem a comprehensão das dôres a que assistimos e a impotencia de não podermos participar d'ellas, tomar para nós a maior porção, attenual-as um pouco, com o osculo das mãos acariciantes e com a ternura emolliente dos beijos ultra-expressivos dos ultimos, dos supremos adeuses?...