Teve Deodato um sorriso franco, dilatado, apresentando entre a dupla polpa dos labios os largos dentes alvos e disse com uma convicção profunda, com um tom sarcastico e decidido:
—Eu ia mesmo, sim, senhor!...
Não houve razões logicas, pedidos, ameaças de penas[{101}] eternas que o demovessem. O negro era teimoso. Retirou-se o padre amuado, quasi colerico, benzendo-se repetidas vezes no meio da escuridão do caminho, tauxiada de pyrilampos loucos e murmurosa do longinquo coaxar de rãs, nos lameiros.
*
Ficando só, Deodato franziu a testa e, mordendo o labio, lançou contra o padre a reprovação tacita d'um gesto energico dos braços. O diabo do padréca que tratasse dos seus negocios. E esta!
Depois, comeu frugalmente, como de costume, um pouco de tainha moqueada e logo atirou-se á rede, vencido pelo somno.
Aquella alma de incredulo estava entorpecida inteiramente. Do contrario, teria[{102}] tempo de reflectir nas observações do sacerdote e quiçá algum sonho o prevenisse da sorte que aguardava a sua irreligiosidade. Mas o infeliz dormiu como uma pedra até que os gallos das roças proximas soltaram no ar socegado os seus cantos da madrugada, despertando-o.
Levantou-se o negro e, accendendo o farol, saíu com direcção á praia.
Trilavam grilos, como n'este momento em que lhes falo. Na noite calma, rebrilhavam estrellas, espelhando na superficie lisa do mar as suas cabecinhas irrequietas. Nenhuma aragem movia os arbustos, as arvores do mattagal. Coaxavam sempre as rãs, emquanto os sapos cururús dialogavam com enthusiasmo. E, ao longe, dominando esses mil arruidos da noite, vibrava ainda o cantar dos gallos, com um não sei[{103}] que de profundamente triste, n'uma plangencia de alma condemnada.
Instantes depois, a canôa do Deodato fazia-se ao largo. Não havia sôpro de brisa. A calmaria era completa. Elle, desde a tarde, esperava aquillo mesmo.