No barracão, Deodato, semi nu, fumava, destrançando as redes. De vez em quando, assomava a cabeça á porta, a inspeccionar o ceu.

Com a grande pratica que possuia, adivinhava, pressentia calma quasi completa para toda a noite. Era isto de certo que lhe dava esse pequeno rictus á commissura[{99}] dos labios e lhe encrespava levemente a retinta fronte. Maior trabalho seria o seu, pois far-se-ia necessario o remar por longo tempo. Emfim, nem tudo podia ser feito á mercê dos desejos humanos... E volvia á faina, de todo absôrto, fumando sempre.

Á boquinha da noite, appareceu um visitante inesperado á porta do Deodato:

—Póde-se entrar?

Era o padre Simplicio.

Sob o pretexto d'uma visita casual, pelo facto de passar ali proximo, ao regressar da roça do Xico Sette, o sacerdote penetrava com o intuito de verificar se o pescador iria aquella madrugada entregar-so ao costumado trabalho.

A occupação do Deodato mudou-lhe a supposição em certeza.

—Não faça isso, homem de[{100}] Deus; olhe que a festa é da padroeira da cidade. Nossa Senhora não lhe perdoará a falta de respeito...

—Ella bem que s'importa co'a minha vida!—respondeu o preto, com um encolher de hombros que também poderia significar ao padre Simplicio o fastio que as suas observações lhe causavam.

—E se eu lhe pedisse que ficasse em casa, que viesse á minha missa, em vez de ir amanhã á pesca; se eu invocasse a nossa amizade, afim de ser attendido...