Foi ha doze annos. Uma tarde, não sei que passara ao menino: estava mais brincalhão do que nunca. Ia por toda a parte, correndo, risonho, amavel com toda a gente. De subito, um grito resoou, acompanhado d'um brado d'alma, indescriptivelmente lancinante! Olhem, ainda o tenho aqui, a vibrar-me nos ouvidos, esse grito de mãe desesperada!

O Anselmo cavalgara o parapeito, n'um instante de descuido de todos nós e, perdendo o equilibrio, rolara para o abysmo. Foi além, defronte d'aquella immensa sapupêma. Em breves minutos lá estaremos. Parou o vapor, desceram escaleres, fez-se inuteis pesquizas durante vinte e quatro horas seguidas.[{126}]

O cadaver adorado não appareceu.

De então para cá—e quantas viagens tenho eu feito?—a infeliz mãe não deixa o Mahissy. O seu affecto retempera-se em passar incessantemente por sobre o sitio onde as aguas caudalosas do Madeira tragaram aquelle corpinho tão fragil e tão querido. De cada vez que por aqui singramos, dona Maria ajoelha-se lacrimosa e, ao chegar ao logar fatídico, arroja piedosamente ao rio uma corôa de saudades artificiaes. Não tem aqui flôres naturaes, a pobre; mas acaso não são bem viridantes as flôres do seu coração, as tristes flôres do pezar eterno?

Nunca mais foi a terra. O seringal, vendeu-o logo, pela metade do preço, Gasta o dinheiro em passagens para si, e corôas para o anjinho. Já devem estar bem reduzidos[{127}] os capitaes da desgraçada. Causa-me isto uma lastima profunda. Mas attendam...

*

Dona Maria erguera-se, n'um impulso desvairado. Levantou por cima da cabeça a mesquinha corôa toda banhada de sol e arrojou-a á agua.

O rio tragou a funebre contribuição, fechou-se murmuroso, em circulos concentricos. A anciã tornara a cair genuflexa, soluçante e transfigurada no seu apaixonado desespero.

Em terra, bem á orla da floresta ancestral, mil aves garrulavam na copa gigante d'uma feroz sapupema secular.[{128}]
[{129}]

Yaras paraenses