II
Jorge,—
Volto do passeio n'este instante com meu marido e encontro a tua carta. Então, meu querido, já estás mau e injusto sem motivo!
Em primeiro logar, dizes—a senhora, o que, na correspondencia, é um matiz bem accentuado de frieza. Não é bonito isso.
Depois, agastas-te sem razão. Não conheces acaso a minha existencia? Não ignoras que goso de uma liberdade limitada. Além d'isso, não temos ambos, eu e tu, as nossas respectivas obrigações? Differentes, sem duvida, dir-me-ás, porém isso não impede que seja imprescindivel cumpril-as todas.
Tens graça affirmando que[{149}] eu podia arranjar um pretexto! Invento-os todos os dias, mas lá vem um instante em que os argumentos minguam e mistér se faz pagar o tributo da propria presença, como hoje aconteceu.
Não sejas, pois, injusto:—eu soffreria bastante.
A vida que levo não tem alegrias para mim, acredita-me. E, se vens ainda augmentar-me os desgostos com recriminações que não mereço, ainda mais me entristecerás.
Amo-te, bem o sabes. Se não o crês, é porque impede-te o teu scepticismo. Como provar-te, entretanto, o meu amor?
Vê se sou corajosa: escrevo esta carta (e bem notas com que tranquillidade), deante de quem sabes. Não posso mostrar mais audacia, mais temeridade, parece-me. Elle anda ao redor de mim,[{150}] com olhares atravessados, que me encolerisariam se eu já não estivesse tão predisposta contra elle.