Ao mesmo tempo, perto do zenith, un crescentesinho de lua e a estrella da tarde,—esta quasi tão luminosa como um raio do teu olhar, querida amiga,—scintillavam merencorios, como annuviados por incognoscivel saudade, entre longas nuvens delgadas, côr de pérola e lyrio, rendilhando-se no azul ferrete do firmamento.
As gaivotas, então, que tinham vindo a seguir-nos,—emquanto[{34}] o meu olhar, da pôpa do navio, parecia desejar attraíl-as poderoso,—grasnaram freneticas e, de subito, descrevendo rapido circulo elegantíssimo, regressaram á terra d'onde tinham partido e fugiram veloces, n'uma actividade de movimentação d'azas perdendo-se ao longe, na meia escuridade do crepusculo.
Fiquei sosinho á ré, a fital-as...—a fital-as, oh! não!—a mirar o ponto do aningal onde se haviam perdido aquelles inconscientes sêres, que tanto me tinham enleiado o espirito nas invisiveis malhas dos seus largos circulos graciosos, descriptos no espaço, em reflexões movediças sobre as gorgolejantes aguas amazonicas.[{35}]
II
Assim também fugiram-me precipitadas do seio as niveas alegrias, quando, levado pela embarcação, ausentei-me saudoso da terra onde ficaram as candidas inflorescencias do meu amor.
Como aquellas gaivotas, preguiçosas e sympathicas, os doces prazeres familiares deixaram-me seguir sosinho, breve regressaram á terra que idolátro na minha apaixonada effervescencia de enthusiasmo pela grande patria digna das maiores dedicações.
Vou-me rio acima, isolado e desconhecido, entre pessôas estranhas, separado de vossos enlevadores affagos, ó[{36}] queridos entes cuja ternura deslaça-me a vida em loiras espadanas de luz puríssima e gentil! Sigo meditabundo, sem receber na alma entenebrecida um raio do vosso olhar,—um só raio que me illuminasse o peito, para pôr em relevo dentro d'elle toda a somma de santos sentimentos para vós,—sómente para vós—guardados alí!
A abafada canção da agua babujando os flancos do navio faz a surdina dolente que acompanha as mestas lamentações do meu espirito obsidiado pela afflicção das saudades.
Ás vezes, a deshoras da noite, quando o firmamento escuro apresenta-se deserto das suas luzentes tauxiações risonhas, e só a floresta da margem rebôa agitada pelo cadenciado barulho da possante machina, embalde busco pelo ceu do meu espirito[{37}] certo par de estrellinhas annejas,—que são os doces olhos petulantes de minha filha, fanaes da vida minha.
E só a luminosa palpitação phosphorescente dos pyrilampos tremeluze rápida no tenebroso velludo dos aningaes da beira.